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Quinta-Feira - 23.05.2019

De hoje a sexta-feira encoberto com chuva e vento forte em SC


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Diário Rio do Peixe

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Colunistas

DE MARIA FUMAÇA - XXI

11/04/2012 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

    Aos poucos, a plataforma ia se esvaziando, as muitas pessoas iam saindo e dando a volta para chegar à parte da frente da estação ferroviária, que, na realidade, era a parte dos fundos, pois a frente mesmo era destinada à plataforma de sua majestade, a Maria Fumaça e seus seguidores, os vagões. O espaço entre os fundos do prédio de alvenaria pintado de amarelo (destaque-se que o amarelão puxando pra marrom, tipo ocre, era a cor padrão dos ferroviários gaúchos) e o alto barranco escavado no morro era pequeno, apertado, e ali se espremiam os autos, as caminhonetes, as carroças, os cavalos, as bicicletas e as pessoas, quando não cachorros perdidos. Todos dividiam o aperto do espaço. Ainda não tinha carrinho de pipoca.

    A partir das portas e portões de madeira, a gente podia sair dali caminhando, dando uma pequena volta pela estrada de chão de poeira na seca e de barro na chuva, ou criar coragem, encher os pulmões de ar (puro) e subir a escadaria que dava direto pra rua de cima, em cima do barranco, está já calçada com pedras. Eram os “paralelepípedos”, aprendi na escola. Como esquecer aquela escadaria, com um lance depois de outro, mais um e mais um e não parava mais de ter degraus... e muitos ufas! depois a gente chegava lá.

    Peguei a mão da minha musa, apertei e ela apertou. Então senti firmeza. Olhei para cima e além barranco via-se a fachada de um prédio de alvenaria, com a inscrição “Grande Hotel”. Pois olha, tchê! “- É pra lá que eu vou”, pensei comigo. Pensei grande. Ela deve ter pensado: “- É pra lá que ele vai me levar!”... Pensei certo e ela pensou certo. Assim, agora nadinha ia dar errado. Olhei pra ela com aquela firmeza nos olhos que lembrava o Drácula quando aproximava seus afiados dentinhos do pescocinho das pobres inocentes vítimas e, de novo, com voz melosa de quem quer, convidei: “- Vamos?”. Era cantada direta à moda vanerão de “vamo que vamo”!!! Ela não respondeu, mas começou a caminhar à frente na direção da escadaria e eu entendi a mensagem.

    Alguns ufas! depois, no meio dos degraus, numa parada pra respirar e tomar fôlego, ouvi os muitos uíbus uíbus das duas grandes locomotivas a vapor da RVRGS, que saindo da estação de Marcelino Ramos, nos trilhos que margeavam o Rio Uruguai, várias curvas depois, puxando os vagões, preparavam-se para começar a subir a serra do Alto Uruguai do Rio Grande Amado pelos trilhos empinados até Viadutos, chegar a Gaurama e depois a Erexim (naquele tempo o ex-Bonifácio se escrevia com X hoje com CH). Ela também, parada, olhou para trás e viu o trem desaparecendo na ultima curva do rio, e deve ter pensado: “Ali deveria estar eu”.

    Pô! Estava cansado demais. Sentei num daqueles que de certeza não era o último degrau. A roupa estava meio suja mesmo. Ela também sentou, do meu lado, aproveitou para esticar as pernas e eu pude deslumbrar os joelhos e suas lindas canelas expostas à luz do sol pelo vestido que subiu um pouco mais do que devia. Mas, a visão linda mesmo era a da paisagem que ficara abaixo de nós. Daí dava pra ver a estação, os trilhos, a ponte metálica sobre o Rio Pelotas, a foz do Rio do Peixe. O encontro das duas águas marcava a nascente do Rio Uruguai, pois ali o Pelotas mudava de nome. Não mudava de água e nem de curso, mas mudava de nome. Coisas que só a geografia explica. A gente ali estava em terras gaúchas e no lado de lá do rio, estavam as terras de Santa Catarina, tudo bem pertinho. Tão longe e tão perto!

    Antigamente o leito do Rio do Peixe (cujo nome bem anterior, do tempo dos índios, era “Goio-Xim”) separava o Paraná (na margem direita) de Santa Catarina (na margem esquerda)... ah! esquerda, claro, pois um rio só tem duas margens... (oh! Pedro Bó, diria o Chico Anísio). Os trilhos acompanhavam o leito desde próximo a nascente do Peixe (que naquele tempo tinha peixes) no Taquaral Liso, quase lá da Estação de Presidente Pena.

    Lembrei que ali, onde o Peixe encosta no Pelotas, no lado direito, o velho coronel Fabrício das Neves, posseiro do Irani, mandou enterrar um dos “monges” do pós-Contestado, depois de fritá-lo e de cortar suas orelhas, mandando-as num pacotinho despachado de trem pro Governador do Paraná. Em tempo: Diziam que o mandatário paranaense, em Curitiba, havia contratado o tal “monge” para matar Fabrício, em mais uma tentativa de arrancá-lo dali. O coronel descobriu a trama e se vingou. Não se sabe se o governador recebeu as orelhas. O corpo do “monge” mal enterrado na várzea boiou na primeira enchente do rio e lá se foi. Tudo ficou na história. Ou tudo ficou no folclore.
    Passada a contemplação histórico-paisagística, então, levantei e carinhosamente estendi a mão, puxando minha musa com um pouco mais de força do que seria suficiente e assim ela foi puxada pra cima de mim, colando em mim. Bem que ela fez uma forcinha pra isso. Outra vez senti aquela pontinha ousada de um dos seus seios encostando em meu braço. Meio que tremi na base, mas (de novo) me segurei. E recomeçamos a caminhada, aliás, a subida dos degraus, rumo ao “Grande Hotel” de Marcelino Ramos. Que dádiva!

(continua)

Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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