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Diário Rio do Peixe

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Colunistas

De Maria Fumaça - LXXXVIII

17/07/2013 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

  O trem avançava mais lentamente do que antes, pois o trecho da ponte sobre o Rio Castelhano até o centro da cidade do Caçador é de subida, mais ou menos acentuada, de uns 12 a 15 metros, imagino, depois de olhar (e de medir à olho) para a altura da cachoeira do Bom Sucesso. A maria fumaça lançava muita fumaça pela chaminé, rugia no fazer força para mover as rodas sobre os já gastos trilhos, abrindo caminho pela deserta linha. Algumas voltas adiante e poderia avistar as primeiras casinhas da periferia do meu Caçador. Mesmo estando um tanto longe, o maquinista abriu a válvula e mandou o sinal do seu primeiro apito ao povoado: uíbu-uíbu... uíbu-uíbo... tipo assim “estou chegando”...

  Era hora de, em ouvindo o apito, a criançada largar tudo e correr para a estação. Hora também para os motoristas dos dois carros-de-praças (mais tarde os profissionais serão denominados de “taxistas”) da cidade descerem as ladeiras para esperar passageiros. Hora de lembrar que eu também já havia sido criança e que me emocionava a cada vez que ouvia o longínquo apito do trem, quando a suada máquina anunciava: “estou chegando - estou chegando - estou chegando”... O Seu Júlio nunca precisou deslocar rapidamente seu caminhão de frete, pois que a lateral da estação sempre foi seu ponto de parada costumeiro.

 Que saudade do Seu Júlio. Desde antes de eu ter nascido ele já era o freteiro do meu pai, do Armazém de Secos & Molhados de Nilo H. Thomé, naquele amplo casarão (onde nasci num 3 de outubro). Tinha e tem muito movimento e várias mercadorias tinham e tem muita rotatividade. Quase todos os trens trazem mercadorias para o armazém do Seu Nilo, vindas de Passo Fundo, de Erechim, de Marcelino Ramos, de Piratuba, de Capinzal, de Videira, de Tangará, de Joinville, de Jaraguá do Sul, de Mafra, de Canoinhas, de Porto União e de Curitiba e Porto Alegre. O armazém dispõe de muitos fornecedores. Até coisas de Corupá chegam regularmente para meu pai vender ali na Rua Carlos Sperança, que até pouco tempo atrás se chamava Rua XV de Novembro, na esquina com a Rua Campos Novos.

  Nesse tempo, a cidade de Caçador já dispunha de telefone. Havia sido inaugurada a filial da Companhia Telefônica Catarinense, e estendida a rede de fios pelas ruas, com o que no perímetro urbano já estavam instalados 200 aparelhos. Eram aparelhos pretos, pesados, alguns de mesa e outros pendurados nas paredes, com disco central para as discagens a dedo. Se não me falha a memória o número do nosso armazém era 132. De um para outro telefone, ali mesmo, até que as ligações ligavam. O problema era do Caçador para fora (e vice-versa). Meu pai só podia falar para fora, pedindo linha à Central, e quando dava linha, ele tinha que ir a pé até a Central para usar a cabine da CTC. Quando alguém queria falar com ele, ligavam para a Central e um piá vinha correndo ao armazém avisar meu pai, que tinha que ir depressa atender ao chamado. Coisa de maluco de outrora.

  O pessoal da Rede sempre foi gente boa. A classe é “dos ferroviários”. Tanto os homens da estação como os turmeiros da linha e os funcionários dos trens, são boa gente. Com eles não tem problemas, pois consertam tudo o que estraga. E com eles também não tem tristeza. A vida é bela.

  Pô!!! Lembrei de uma, muito boa!!! Deixa eu contar essa:

  Na noite de 4 para cinco de novembro de 1943, num carro de primeira do direto, viajava o Seu Luiz Pedro Marini, que vinha lá da estação de Barra do Pinheiro, próximo de Piratuba e de Capinzal. Era noite escura, tempo já meio quente, sem chuva. A partir da estação de Videira, o trem passou a rodar mais devagar. Seu Luiz, que viajava regularmente no trecho, rumo ao Caçador, estranhou aquela lentidão, dando asas à imaginação sobre qual seria o motivo da lenga-lenga: falta de lenha, falta de água, defeito na máquina, problema na linha à frente???

  Uma hora e meia a mais que o normal, e o direto chegou (finalmente) se arrastando na estação do Caçador. Seu Luiz Pedro Marini, meio que brabo, mais curioso e um tanto menos do que zangado, desceu do vagão e antes de ir para casa (onde lhe esperava a querida esposa dona Verônica), foi saber o que tinha havido. Ao ver o maquinista e o foguista lá na frente, descendo da maria fumaça dando risadas, ficou, digamos, “encucado” e se atreveu a tirar satisfações, ainda antes da chegada ali do Chefe da Estação, esse também que deveria querer saber as razões deste baita atraso.

  À pergunta sobre o que acontecera, o maquinista, entre sorrisos e palavras, respondeu-lhe: - O senhor está vendo aquele casal ali, descendo do carro-dormitório? Pois é. Eles embarcaram em Videira logo após o casamento e nós trouxemos os dois em lua-de-mel. Lá nas videiras, o homem (que nós conhecemos muito bem, pois é freguês da Rede) nos deu uma gorjeta gorda para a gente segurar a composição... para demorar mais... e assim... o casal teve mais tempo para curtir a noite de núpcias...

  Quem meu contou essa foi o próprio Seu Luiz, emendando que, o casal que descia do vagão-dormitório na estação do Caçador, era Nilo e Rene Thomé, meus pais.

(Continua)

Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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