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Quinta-Feira - 21.03.2019

Início do Outono às 18h58min (Hemisfério Sul)


MÍNIMA: 16º - MÁXIMA: 26º

Diário Rio do Peixe

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Colunistas

DE MARIA FUMAÇA – IX

18/01/2012 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

Nilson Thomé

   Sim senhor. A gente sonha e puft. Acorda. O vagão encheu e, na nossa frente, bancos recostados ao contrário, sentou um casal de velhinhos. Ficaram frente a frente conosco... e então o clima amoroso pirou. Vergonha na cara, tchê. Minha deusa, meio escondidinho, deu um beliscão de unha na minha mão, que se recolheu. Ficamos sem jeito. Mas eu sabia que ela tinha gostado de sentir minha mão acariciar e is cada vez mais serra acima. Senti isso porque, uma hora, vi e escutei ela suspirar, de olhos fechados. Que tal eu, heim? Ex-caipira. Ex!!!

   O nono e a nona na nossa frente não tardaram em puxar conversa. Queriam saber se éramos casados. Claro, nós dois ali, juntinhos, irradiando paixão, dávamos a impressão. Nunca imaginaram eles que havíamos nos conhecido minutos antes. E que minutos fervorosos! Queriam saber para onde íamos. Eu sabia, e logo disse: - Marcelino Ramos!. E Ela, quase simultaneamente, respondeu: - Estação Getúlio! mas logo remendou, ruborizada: - Marcelino Ramos!!!. Fiquei pasmo. Ela ia para bem mais adiante de onde eu ia, mas mudara o destino para ser o mesmo do meu. Despistando um misto de alegria e satisfação, antevendo que nossos destinos afunilariam, perguntei aos velhinhos a mesma coisa, e responderam: - Nós dois vamos para Cruz Alta, visitar a família que ficou lá quando emigramos para as terras de Santa Catarina, fazem muitos anos. Em Marcelino vamos fazer a baldeação. Então, teríamos que nos aturar mutuamente até atravessar o Rio Uruguai, divisa dos estados, ali pelas cinco da tarde. Tomara que o nono e a nona entrassem no embalo do trem e logo cochilassem, dormissem sono profundo, apagassem...

   Minha companheira devia estar pensando a mesma coisa. Não disse, mas acho que pensou, sim, pois continuava me olhando fixa e profundamente, como quem queria desvendar meus pensamentos e sentimentos pelo olhar. Entre os tlec-tlec e tlec-tlec das rodas se esfregando nos trilhos, ela voltou a encostar sua coxa na minha... como que prometendo descortinar novas chances...

   Antes, na Estação de Itapuí, que virou Ibicaré, quase perto de quem chega a Bom Retiro, que viraria Luzerna, tinha entrado um cara isquisito no vagão. Foi sentar ao lado do mal-encarado papudo que tinha embarcado no Rio das Antas. Era só risadinha. Ele se apresentou para todos nós, sorridente. Disse que era homem de muita sorte. O nome dele era Fortunato. Sua história já tinha sido contada em revistinha dos ferroviários. Fortunato era um homem roliço, risonho, de rosto cheio, a evocar o Gordo das fitas cômicas americanas pra desgraça de o Magro. Estava de terno azulado, sapato preto de verniz, tão lisinho que parecia espelho se não fosse preto, e de gravata.       A história do Fortunato, homem de fortuna? ei-la:

- Ah! Eu tenho muita sorte, nem imagina.
Era essa a frase que lhe brotava incessantemente dos lábios, e exclamou:
- Não calcula a minha sorte. Decididamente sou um monstro de felicidade.
E sorria arregalado.
- Que foi?
- Imagina que me roubaram o auto, aquele Chevrolet novo, que você conhece.
- E acha que isso seja uma felicidade, perguntei admirado.
- Incalculável! Consumia-me um dinheirão em gazolina. E, além disso...
- Que mais?
- Minha mulher, que tinha o hábito de passear a sós, de auto, foi incluída no roubo...
E casquinhou fragorosa risada. Há! Há! Há!
- Sem Chevrolet e sem mulher! Que sorte! Que estupenda sorte!!!

   Outra piadinha sem graça contada em vagão de trem. Ninguém riu. Nem dava pra rir, tamanho mau gosto. Aparece cada tipo. Minha companheira só sussurrou: - Machista!

   Foi aí que, de repente, muito de repente, a parte da frente do vagão começou a chegar mais perto de mim, bem ligeiro em meio a um estardalhaço, com madeiras, vidros quebrando, ferros retorcidos, gente gritando, malas saltando dos bagageiros e caindo se arrebentando... Um baque! Com ele, fui lançado sobre o casal de velhinhos, que nem lembrei se estavam dormindo e nem sei se acordaram. O encosto do banco fez pressão nas minhas costas e me jogou à frente sem dó nem piedade. Junto, minha musa também foi lançada e ficou prensada entre eu e a velhinha.

   Não vou negar. Apesar de tudo, gostei de sentir os seios dela apertados contra meu peito. Ainda mais que a parte de cima do vestido dela rasgou e deixou aflorar boa parte dos quentes favos de mel. Quase deu vontade de gritar “- Dane-se o mundo!!!”, mas a hora não era pra isso. Tratei de afrouxar a pressão e conferir estragos ao redor. O chiado das rodas de aço freadas na brusca fricção com os trilhos ainda podia ser ouvido. Grave ou agudo, não era melodia. Estava mais para sirene.

(continua)


Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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