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Terça-Feira - 18.06.2019

Frente fria de fraca intensidade na quarta e na quinta com geada em SC


MÍNIMA: 12º - MÁXIMA: 26º

Diário Rio do Peixe

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Colunistas

De Maria Fumaça - LXV

06/02/2013 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

  O tal mafrense ferroviário aposentado, alemão por descendência e russo por proximidade, que se chama Joseph Albert Karl von Kastern, mostrou que é mesmo muito entendido em ferrovia, principalmente em coisas do trem. Gostei do que ouvi (e passei pra vocês). Pena que se aposentou. Pela aparência, poderia continuar trabalhando mais uns dez, vinte anos, que aguentaria o tranco.

  Pois é... a gente estava falando do circo, da alegria que é para a gurizada (e quem disse que para os adultos não é?) quando um circo chega de trem à cidade. Aprendi a dimensionar a importância dos circos, primeiro, pela quantidade de vagões do trem que os trazem. É a teoria da quantificação!!! E depois, pelos mastros que tem a lona do picadeiro. Uma lona: é piquininho, xôxo. Duas lonas: é masomeno, dá pro gasto. Três lonas: ôba! Esse sim é circo grande, dos bons.

  No meu Caçador, nestes anos 50, os circos se instalam em dois lugares prediletos. Um deles fica num terreno da baixada da Avenida Rio Branco, logo depois dos trilhos, num terrenão à direita entre o espaço onde um dia o Seu Martins vai construir um hotel, que dará o nome de Ronda Hotel (e que venderá para o Seu Ramos) e o terreno onde o Seu Roveda vai construir a agência da Willys-Overland, quase em frente ao casarão de dois pavimentos onde funciona o Correio e onde o Maestro Ladislao vai se instalar com sua escola de música. Outro lugar preferido é o terreno grande ao lado da agência da Ford, do Seu Etelvino Pedrassani, e no outro lado da rua lateral à pracinha da Igreja Matriz de São Francisco de Assis, onde, futuramente, daqui a alguns anos mais, será construída a Praça de Esportes e, mais adiante, por cima, o Jucy vai erguer o Paço Municipal. Bem mais tarde, outros locais serão disponibilizados para os circos e parques de diversões, inclusive em frente a estação do trem.

  O circo sempre chega de trem entre a terça e a quarta-feira. Semanas antes o empresário vem escolher o terreno e paga adiantado pelo aluguel. Geralmente ninguém cobra o aluguel do circo em dinheiro, mas sim, em bilhetes de entrada, ingressos nos camarotes, jamais nas cadeiras ou nos puleiros. Na quarta, quinta e sexta de dia, os trabalhadores armam as barracas, espalham serragem (que buscam nas serrarias, para cobrir o chão) e erguem a lona. Ao redor, as casinhas desmontáveis (agora montadas) que servem de dormitório e de camarins dos palhaços, dos malabaristas, dos trapezistas, dos músicos e dos domadores.

  Nossa piazada adora este tempo da preparação. Todos ficam horas e horas intrometidos com o pessoal, querem ver tudo à volta: os bichos sendo alimentados, os ensaios dos artistas, os cavalos brancos (o Faísca do Beto ainda não havia nascido, ok?) tudo é novidade. Com meus amigos – quando eu era piá – eu gostava de entrar de fininho de noitinha e pelas frestas das tendas, ficar espiando as moças que se apresentavam, pois quase sempre estavam com os pernões à mostra, quando não mais alguma coisa acima disso...

  Na sexta-feira de tarde, há o desfile dos bichos, palhaços e atrações na Avenida. Bem devagar. Mas não demora muito. Uns caras enfeitados vão na frente da comitiva com megafones, anunciando que à noite terá espetáculo. No meio da parada tem a bandinha. A cidade para. Literalmente para. Todos vão à rua para ver e aplaudir o desfile de propaganda.

  E à noite é aquela correria. Quem chega antes, consegue comprar ingresso. Quem fica em casa se arrumando, se arrumando, se arrumando, muito tempo em frente ao espelho, perde a hora e tem que voltar para casa. Enquanto tiver lugar, os espectadores podem ir entrando (e inclusive se empoleirando nas arquibancadas).

  Estou narrando isso e só no lembrar estou sentindo o cheirinho típico, que me vem da serragem do picadeiro, da lona às vezes furada e da pipoca sendo estourada, o perfume das mulheres na platéia, tudo junto que entra pelas narinas da minha imaginação... e me faz sentir de novo dentro do circo.

  As luzes se apagam, fica tudo escuro. De repente, a banda começa a tocar e as luzes do picadeiro vão sendo acesas uma a uma, a vermelha, a azul, a verde, a amarela, a branca (não tem preta, não) e o colorido vai piscando lá e cá, até que entra aquele cara de cartola e casaca, e sempre falando em castelhano, enquanto os músicos baixam o som, bradando o mais alto que pode: “Respeitável público... buenas noches...” e aí a bateria, o saxofone, o trompete, a gaita, o clarinete, o trombone, voltam a ensurdecer o picadeiro, Assim começa o espetáculo prometido e anunciado que nos faz bater palmas duas horas seguidas, com o domador chicoteando ao ar para ter o respeito dos leões que urram para ganhar comidinhas, a apresentação imperdível de Los Gaticas, os cavalos galopando em círculo, os cachorrinhos amestrados, os elefantes erguendo as patas, as mocinhas acrobatas de pernas de fora nas argolas, arcos, o mágico fenomenal, mais palhaços, o sujeito na corda-bamba, tudo terminando com a sensacional apresentação dos trapezistas que nos tiram o fôlego a cada voada, quando não tem o tal globo da morte para nos deixar assustados a cada ronco de motor.

  Nos domingos à tarde, na hora do matinê, quando crianças podem assistir, a piazada dá muito trabalho para os guardas (que mais adiante no tempo serão chamados de “seguranças”), pois sempre há os guris que não podem ou não querem pagar ingresso e tentam entrar “de ratão”, se arrastando por baixo da lona e por trás dos puleiros. Tenho um amigo lá do Caçador deste tempo que tentou fazer isso um dia destes e não conseguiu. É o Salomão Ribas Júnior (o filho do seu Salomão, sim, o irmão da Agra) – ele que um dia ainda será pessoa muito importante no Estado. Como todos os que são pegos pelos sapatos no infortúnio da vã tentativa (como eu idem já fui flagrado e por isso levei um “croque” na cabeça do Soldado Paulista), ele ganhou um puxão de orelha. Isso também faz parte do circo.

  Já sinto falta de ver os palhaços, o Torresmo e o Chic-Chic, sempre fazendo suas graças engraçadas, até a entrada triunfal do palhaço Chincharrão, pois eles deixarão saudade.

  E dá para esquecer os Irmãos Queirolo?

(Continua)

Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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