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Diário Rio do Peixe

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Colunistas

De Maria Fumaça - LXIV

30/01/2013 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

  E perguntei: 

– Me explica aí, como é que funciona esse negócio de transporte de animais no trem, pois fui a Luzerna comprar cachorro e queriam que eu amarrasse ele pelo pescoço e ele nem coleira tem, então tive que despachar o bichinho num engradado velho de gasosa, pois não tinha jaula nem gaiola. Coloquei uma lata com água dentro e uns restos de comida que a cozinheira ali da estação deu, em cima de num papel de jornal. Paguei adiantado e carregaram o filhote lá num vagão de carga.

- Ora, caro amigo – disse ele – a coisa é assim: o trem, seja de passageiro ou de carga, pode levar bichos, tipo animais de sela ou de carruagem, encabrestados, mais bois, vacas, touros e bezerros, mais carneiros, cabras, porcos, devidamente seguros, e pequenos animais e aves domésticas ou silvestres, em gaiolas, capoeiras ou caixões engradados, e ainda, cães, ursos e outros animais semelhantes, domesticados, quando bem açaimados e presos à corrente, como é o seu caso, aliás, como é o caso do seu cachorrinho lá atrás, que, se você deu pouca comida, ele deve estar uivando de fome. Mas ele não precisava vir de engradado, e sim só preso em corrente. A Rede recomenda que os engradados ou gaiolas devem ter capacidade suficiente, de modo a não causar tortura às aves ou animais durante o transporte. Por isso, não aceita nenhum bicho dentro de sacos, jacás, atados pelos pés ou mal condicionados.

– Animais soltos, podem viajar de trem?

– De jeito nenhum. Em trens de passageiros nunca, mas em trens de mercadorias, sim, mas só quando em grande quantidade e em vagão especial para os bichos, tudo despachado com frete pago antes. A Rede tem vagões onde transporta muito gado bovino, rebanhos de ovelhas, porcos e até cavalos. Isso dá um bom dinheiro.

  Puxa! E não é que o cara bonachão sabia mesmo tudo de trem? E já que tinha a chance, resolvi continuar essa conversa ferrorística. Deixaria a leitura do caderno “do monge” para depois (ou dispois, como diria o caboclinho).

  Então larguei ao sabichão:

– Amigo, como é que é formado, organizado um trem, tipo desses aqui que correm pelo Rio do Peixe e mesmo lá pelo Iguaçu?

– Tem uma tabela que regula a organização de uma composição, de acordo com a capacidade de cada locomotiva. Máquina pequena de pequena potência, poucos vagões. Quando a composição precisa ser grande, com muitos carros em determinando trecho, a Rede coloca para puxar uma máquina mais potente. Em princípio é proibida a formação de trens com dupla tração, como é comum lá no Rio Grande; aqui, quando houver autorização, as duas devem seguir lá na frente juntas, uma atrás da outra.

  E deu uma lição de graça, sobre outra coisa que eu não sabia:

– Sabe, tem uma coisa que incomoda muita gente por aqui. As locomotivas importadas mais recentemente dos Unaites Esteites, super-potentes, rendem pouco na RVPSC. É que originalmente elas foram projetadas e fabricadas para serem alimentadas com carvão mineral. Mas, aqui, teimam em usar lenha e alguns nós-de-pinho, o que não fornece a caloria suficiente, mesmo com muito mais fogo e fumaça. Aí elas apanham e começam a estragar logo, pois mesmo com muito fogo e fumaça, não tem calor que chegue. Mas, enquanto tiver lenha barata e abundante nas beiras dos trilhos, haja lenha!!!

  Pedi: – Me conta mais, meu caro. E o sujeito emendou:

– Quando organiza uma composição, o Chefe determina ao maquinista que faça e confira tudo, pois a última palavra é dele, como que os vagões grandes são reunidos e ligados primeiro à locomotiva, depois os pequenos, e, na cauda, o bagageiro ou outro vagão com o freio em boas condições. Isso é para evitar o recuo ou fuga de carros no caso de ruptura de engates ou qualquer outro acidente. Os carros de passageiros, nos trens mixtos e de cargas, são sempre colocados na cauda dos trens, e depois do bagageiro. Nos trens de passageiros não se ponde juntar vagões abertos carregados com volumes de grandes dimensões, pois podem se tornar causa de acidente. A gente toma o cuidado de, nos diretos e nos mixtos, separar dos carros de passageiros os vagões carregados com trilhos, pranchões, dormentes, pedras, usando pelo menos dois outros vagões que não estejam assim carregados. É por segurança mesmo.

– Tem mais – emendou ele: Nos trens mixtos e de cargas, não podem ser transportados animais ferozes ou perigosos, e nem materiais que, por sua natureza, se tornem incômodo para os passageiros, sendo absolutamente proibido nestes trens o transporte de substâncias sujeitas a explosão ou facilmente inflamáveis.

  Aí, eu lembrei cá para meus botões, os bons tempos em que tinha trem que transportava circo. A empresa circense contratava trem especial quando mudava de cidade para cidade e, nos vagões abertos, levava tudo, desde as barracas, os mastros, girafas, zebras, os elefantes (hipopótamos às vezes), até as jaulas, com tigres, leões, cachorros, mais as casas dos palhaços, malabaristas, trapezistas, e etecétera, etecétera. Era uma festa para a piazada ir na estação ver a parada ou a chegada/partida do trem do circo.

  Que emoção ver quando os animais grandes eram descidos e o circo desfilava pela avenida, anunciando que hoje ia ter espetáculo.

– Respeitável público!

(Continua) 

Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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