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Quinta-Feira - 21.03.2019

Início do Outono às 18h58min (Hemisfério Sul)


MÍNIMA: 16º - MÁXIMA: 26º

Diário Rio do Peixe

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Colunistas

De Maria Fumaça - LX

02/01/2013 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

  Videira estava próxima. O trem deveria chegar ali por volta do meio-dia. E por ser metade do dia, pararia na estação previstos 35 minutos para os passageiros “tirar a barriga da miséria”, como diziam os mais antigos, ou para “matar a fome”, como diriam os que tem mais vontade de comer. Com isso eu fiz as contas: devo chegar no Caçador às três e meia, bem no meio da tarde Então, se tiver sorte, pego uma carona em caminhão qualquer (nesse horário não tem ônibus) e antes das cinco ou seis, chego em casa, no meu Castelhano querido.

  O que? Você não sabe onde fica Castelhano? Ora, ora, oh, meu! No Caçador todo mundo sabe: Castelhano é o nome de um local, que não é povoado e nem lugarejo, é só uma localidade, onde tem capela, cemitério, algumas casas de colonos (como o Zir, o Castelani, o Brescanzin, entre outros), e uma fábrica de pasta mecânica (tipo celulose, matéria-prima usada para a fabricação de papel) do Bortolon. Fica ali, logo ali, na estrada que vai para Curitibanos, na ponte que passa o Rio Castelhano, esse que dá ou empresta o nome para a terra.

  E quem foi que deu o nome ao rio? Ah! Essa pouca gente sabe. Então vou explicar...

  A história me foi contada há bem pouco tempo, numa das nossas madrugadas de caçadas a tatús (nada de “fulecos” aqui), no pedaço de terra que vai do Castelhano ao Cerro Branco. Meu pai, Nilo Henrique Thomé, compadre do Vitor Brescanzin, recém comprou a propriedade dele, onde tinha uma bodega na beira da estrada, bem pertinho da ponte, e fez sociedade com meu tio, Nestor Arlindo Thomé. Abriram a casa comercial de Thomé & Cia. Ltda., há poucos meses. Ela que, de bodega virou armazém. Quem toca é meu tio Nestor, casado com Dona Genoveva.

  Desde piazinho eu tinha o costume de escapar de casa e ir pro Castelhano. Gostei tanto que fui morar lá. A gente levantava quando ainda bem escuro e ia ver nascer o sol, ou na margem do rio tentando pegar carpas, jundiás ou saicangas, com bastante minhocas na latinha e massinha da boa no pacote, ou então no mato, atrás dos buracos pra ver se tinha tatús dentro. E olhe, minha arma de guri era e é ainda uma taquari, pois aprendi com o tio Nestor a socar pólvora, chumbinho e bucha no cano e depois colocar a espoleta. Na maioria das vezes quem nos faz companhia nas pescarias e caçadas são vizinhos, uns são caboclos do tempo antigo.

  Então, numa dessas caçadas de antes do dia nascer, dois velhos caboclos que nos acompanhavam mato adentro, com a cachorrada acoando a toda, estavam de prosa sobre a guerra dos fanáticos de anos atrás (referiam-se ao acontecimento que mais tarde chamaremos de Guerra do Contestado), da qual fizeram parte. No bate-papo, e entre um latido e outro dos cães, um deles mencionou que na margem do rio, não ali na ponte, alguns quilômetros mais acima, existia uma tapera, bastante velha, que era onde morava um cara de origem castelhana, ou seja, um cara que não era português. Eles não sabiam se era argentino, uruguaio ou paraguaio, mas sabiam que ele era lá daquelas bandas, pois falava mais espanhol do que portunhol.

  Me contaram que esse rio fazia parte de uma briguinha de coronéis fazendeiros, que desde antes do Imperador cair (1889 para quem esqueceu a data) disputavam a posse do terreno, não se definindo se ali pertencia a Curitibanos ou a Campos Novos. O cara morador não deixava ninguém chegar perto. Era muito brabo e valente. Recebia estranhos à bala. Só ficou decidido que era de Curitibanos quando o tal castelhano sumiu, isso por volta de 1914/1915. E na disputa, todo mundo dizia que esse curso de água era “o rio do Castelhano”, como se “Castelhano” fosse o nome de batismo do cidadão.

  Quando a estrada de ferro construiu a linha, margeando o Rio do Peixe, em 1909 fez constar nos mapas a construção de uma ponte metálica sobre o Rio do Castelhano (bem perto de onde nos anos 40 o Tedesco construiu sua fábrica de pasta).

  E assim foi batizado o Rio Castelhano, afluente da margem esquerda do Rio do Peixe.

  E sabem que eu acho que era o tal castelhano? O próprio: Agustin Saraiva Perez, sobrinho dos famosos e valentes caudilhos da campanha gaúcha, Gumercindo Saraiva e Aparício Saraiva, jovem lutador e degolador na Revolução Federalista, ele que, na retirada da Lapa, em abril de 1894, preferiu ficar por aqui escondido ao invés de regressar ao Rio Grande em companhia dos tios.

  Era homem de pouco papo. Os sertanejos não o chamavam pelo nome, pois que ele não dizia o nome pra ninguém. Por isso, era chamado só de “Castelhano”. Sabiam que ele havia sio “maragato” anos antes. Era o único espanhol (castelhano) que morava por estas plagas, os outros moradores eram todos luso-brasileiros. Ele, sim, ele mesmo, o cara que virou bandido na nossa história e, como chefe de piquete caboclo, em setembro de 1914 foi de assalto a Curitibanos para matar o Coronel Albuquerque e, pouco depois, foi morto em Lages, quando seus algozes cortaram as duas orelhas como prova de morte ao Exército.

  Bem...essa é uma versão.

(continua)

Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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