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Colunistas

Copa do Mundo em 2018

Na Rússia, será com o Sistema de Vídeo-Árbitros Assistentes (VAA ou VAR’s)?

12/09/2017 - 10:16:32
José Luís de Castro

Sou um admirador e amante do futebol. Acompanho de muito perto as novas tendências do desporto-rei, ao nível federativo e principais inovações dos organismos internacionais de futebol (FIFA, UEFA e International Football Association Board), assim como no setor da arbitragem e campo disciplinar e sancionatório do futebol profissional.

Muitas das polémicas no futebol surgem em redor da arbitragem, com os torcedores, treinadores, jogadores, dirigentes e presidentes de clubes de futebol a reclamarem melhor espetáculo e maior verdade desportiva nos jogos de futebol. Muitas pessoas exigem – na sequência, do já realizado em outras modalidades desportivas, como seja no atletismo, ténis, vólei ou rugby – a introdução das novas tecnologias e um sistema de vídeo-árbitro nos jogos de futebol profissional.

No Atletismo, nas provas de velocidade, o recurso aos meios televisivos e às novas tecnologias de computação são frequentemente usados para apurar, com a precisão necessária, quem venceu (ou não) uma corrida de 100, 200 ou 400 metros, por exemplo. Aí, os miléssimos de segundo ditam, muitas vezes, os resultados de cada atleta na prova efetuada (com os tempos precisos) e determinam os 1º, 2º, 3º lugares e restantes posições.

No Ténis e no Vólei o vídeo-árbitro de precisão (registo televisivo e programa de computação) permite, através da imagem televisiva e do computador, saber se uma bola jogada caiu dentro ou fora da quadra, se ela pisou ou não a linha, decidindo o árbitro, em conformidade com a decisão dada no sistema de vídeo-árbitro – visionado por todos, inclusive espectadores. Nesses esportes e jogos, o recurso ao vídeo-árbitro, é determinado pelo juiz da partida, quando tiver dúvidas, ou a pedido do jogador ou treinador, no número limite de vezes por set de jogo.

Já no Rugby, existe um espaço próprio, no estádio, destinado ao sistema de vídeo-árbitro (com televisores e gravação automática da partida), onde estarão somente os adjuntos da arbitragem e um representante de cada equipa (em regra, um técnico) e sempre que necessário, o árbitro de campo, pede a intervenção do vídeo-árbitro para confirmar e tomar as decisões corretas no jogo, sejam faltas, penalidades ou cartões aos jogadores faltosos – o sistema do vídeo-árbitro, se justificado, pode ainda ser visionado pelo próprio árbitro, junto ao campo de jogo, em regra, ficando automaticamente visível para todos os espectadores (no estádio e nas tvs), o que muito tem agradado aos adeptos da modalidade. Os tempos de paragem do jogo para a tomada de decisões de arbitragem, nestes casos, é relativamente curto e célere.

O International Football Association Board (IFAB), órgão máximo da arbitragem no futebol mundial, aderiu a experimentos práticos do sistema de vídeo-árbitro, com recurso às novas tecnologias, notoriamente para os lances de jogo que podem mudar o resultado de uma partida de futebol, seguindo o lema: «mínima interferência, máximo benefício».

A FIFA está também a testar o sistema de vídeo-árbitro em vários jogos das suas competições profissionais, com o objetivo de implementar a nova tecnologia (e ferramenta de computação) já na Copa do Mundo de 2018, na Rússia.

O sistema do vídeo-árbitro visa apoiar as decisões do juiz de campo (ou árbitro principal), basicamente ajudar a reduzir os erros na arbitragem em momentos-chave da partida de futebol, bem como nas situações mais graves que porventura possam passar despercebidas à equipa de arbitragem. Para que o sistema de vídeo-árbitro funcione, é necessário que a partida de futebol seja registada (e gravada) por um número mínimo de câmaras de televisão (em regra, 16) em todo o estádio.

Situações em que é utilizado o sistema de árbitro de vídeo (AV), internacionalmente designado por sistema de Vídeo-Árbitros Assistentes (VAA ou VAR’s):

  • 1) Golos – Quando há uma falta ou fora de jogo («off side») em um lance de gol;
  • 2) Penaltis – Na decisão errada do árbitro na atribuição (ou não) de um penalti;
  • 3) Cartões Vermelhos – Sempre que o juiz da partida não utilize o cartão vermelho na ocasião devida; e
  • 4) Identidades trocadas – Quando o árbitro sanciona o jogador errado.

Mas, como funciona o sistema do árbitro de vídeo?

Na prática, o sistema é empregue nas 4 situações muito específicas (acima já identificadas), como seja na validação ou anulação de um gol, na marcação ou não de um penalti, na atribuição ou não de cartões vermelhos e, ainda, nos possíveis erros na identificação do jogador a castigar. Na imagem seguinte da FIFA, poderão ver com melhor descrição o sistema.

O recurso aos Vídeo-Árbitros Assistentes (VAA ou VAR’s) pode ser determinado pelo juiz da partida, através do sistema de intercomunicações da equipe de arbitragem, ou podem os assistentes (e árbitros de vídeo) recomendarem ao árbitro principal que reveja a sua decisão (ou omissão), no decurso do jogo, através do VAA. Nestes casos, o passo seguinte passa para os árbitros de vídeo, instalados em sala privada de operações (dentro do estádio ou fora dele – por exemplo, em Portugal, estão instalados em sala privada na sede da própria Federação, não nos estádios de futebol), que revêem o lance e depois informam ao juiz da partida a decisão correta. Mas pode também, o próprio árbitro da partida (o ‘homem do apito’) decidir rever, ele próprio, a jogada no televisor colocado junto à linha lateral do campo, visualizando o lance e depois decide manter ou alterar a sua decisão inicial, e depois prossegue o jogo.


Os casos de fora de jogo («off side») não são objeto de análise pelos árbitros de vídeo, a não ser nas situações que resultem em lance de gol. Em contrapartida, o sistema pode funcionar como um incentivo para os árbitros assistentes deixarem prosseguir as jogadas que suscitem dúvidas de «off side» — em caso de gol irregular, a decisão será revertida pelo juiz da partida.

A introdução do vídeo-árbitro, há muito defendida pelos principais responsáveis do futebol, é determinante para diminuir “a margem de erro” nos jogos de futebol. Como qualquer observador e amante do futebol sabe muito bem, o «erro» faz parte de uma partida de futebol e é inerente à dinâmica do próprio jogo. Não tem como erradicar os erros de arbitragem em uma partida de futebol. Por outro lado, o recurso sucessivo (ou sistemático) ao sistema do vídeo-árbitro durante um jogo de futebol pode(rá) originar muitas e longas paragens da partida, interrompendo o tempo e ritmo da partida (ou da equipa que se encontre, no momento, mais veloz), podendo, até, servir para afastar responsabilidades próprias da equipe de arbitragem, embora não seja nada disso que se pretenda com a introdução do sistema de vídeo-árbitros (VAR’s).

O passo decisivo para a introdução definitiva do sistema do árbitro de vídeo no futebol foi dado a 5 de março de 2016, durante o 130º Encontro Anual da FIFA, realizado em Cardiff, quando o International Board (IFAB) decidiu finalmente dar luz verde à introdução do mecanismo tecnológico (e de computação) disponível. No final de abril desse ano, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, confirmou que a tecnologia do vídeo-árbitro seria utilizada na fase final da Copa do Mundo de 2018, na Rússia.

Mas atenção, ele não é um sistema infalível.

Logo na primeira vez que foi oficialmente testado – no Mundial de Clubes de 2016 –, as equipas de arbitragem deram alguns ‘tiros no pé’, como observaram os jornalistas e comentadores de futebol. A final do torneio, entre o Real Madrid e o Kashima Antlers, o defesa Sergio Ramos deveria ter sido expulso por acumulação de amarelos, contudo acabou por ficar em campo, por falha de comunicação entre a equipa de arbitragem (video-árbitros inclusive).

O sistema de vídeo-árbitro (ou árbitro de vídeo, como designa a CBF - Confederação Brasileira de Futebol) foi formalmente introduzido no ano de 2016 e, na presente época desportiva de 2017/18, onde estão a ser realizados ensaios práticos nas competições locais de 13 países: Alemanha, Austrália, Bélgica, Brasil, Coreia do Sul, Estados Unidos da América, França, Holanda, Itália, Portugal, Qatar, República Tcheca e Turquia.

No Brasil, o jogo da final do Campeonato Pernambucano de 2017, entre o Sport e o Salgueiro, foi realizado com recurso a um sistema de árbitro de vídeo, com o apoio da Comissão de Arbitragem da CBF e da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol (ENAF). Foi um dia histórico e inesquecível para o futebol profissional brasileiro, havendo, até, uma decisão muito polémica ao minuto 25 do segundo tempo de jogo, estando o placar de zero a zero, um jogador do Salgueiro marcou um gol, mas o árbitro assistente lateral (Emerson Augusto de Carvalho) assinalou saída de bola em cobrança de escanteio, o que foi confirmado pelo árbitro de vídeo, a pedido do juiz da partida (Wilton Pereira Sampaio), tendo sido anulado o gol e, por consequência, a partida prosseguiu até apito final, com a vitória do Sport. Como se devem recordar, a contestação estendeu-se até ao Tribunal de Justiça do Desporto do Estado (TJD-PE).

Em Portugal, assim como em muitos outros países europeus aderentes à iniciativa de teste da IFAB, foi introduzido um sistema de vídeo-árbitros assistentes, nas suas competicões profissionais de futebol (da 1ª e 2ª Liga), para todos os jogos da presente época de 2017/18. A figura do vídeo-árbitro é composta por 2 (dois) elementos/árbitros profissionais no ativo, por cada jogo, que estão em sala própria para o efeito, fora do estádio de futebol – mais concretamente nas próprias instalações da FPF (Federação Portuguesa de Futebol), intervindo no jogo sempre que solicitado pelo árbitro principal ou em situações claras e evidentes de erro sobre uma das 4 situações previstas para atuarem.

O campeonato da 1ª Liga (Portuguesa de Futebol Profissional) vai, ainda, nas suas jornadas iniciais e já existem muitas reclamações de toda a parte – dos representantes de clubes que se consideram prejudicados por ausência de intervenção dos vídeo-árbitros assistentes nos lances de manifesta penalidade máxima (os chamados ‘penaltis de televisão’) ou em lançes faltosos de jogadores sem o devido cartão vermelho –, o órgão máximo da arbitragem veio já esclarecer aos clubes e ao público em geral que o sistema de vídeo-árbitro só intervirá nas partidas quando o erro seja notório e latente ou a pedido do juiz da partida, quando ele tiver dúvidas.

Por outro lado, na Itália, o sistema de vídeo-árbitro nas competições profissionais de futebol, ressaltou para a discussão pública o tema da verdade desportiva, porquanto, nas jornadas iniciais, foram marcados 2 penaltis contra a Juventus (o ‘eterno’ campeão nacional), após intervenção dos vídeo-árbitros assistentes, o que não sucedia antes, e há muito tempo, contra a Juventus.

Apraz ainda registar que a revolução no futebol profissional da atualidade poderá não ficar por aqui, pois a FIFA está a estudar um conjunto de propostas de alteração das regras de futebol que estão a ser cogitadas pelo  antigo internacional holandês Van Basten (atualmente diretor técnico da FIFA). Estão em causa propostas de alteração nas leis e regras do futebol, tais como:

  • 1) o fim do fora de jogo («off side»);
  • 2) a adoção de penalizações de 5 ou 10 minutos em substituição dos cartões amarelos;
  • 3) a interrupção do relógio (tempo de jogo) sempre que a bola não estiver em jogo nos últimos 10 minutos de cada partida de futebol;
  • 4) a introdução de 2 mais substituições nos prolongamentos;
  • 5) a substituição dos desempates por penalidades pelo «shoot out» (cinco tentativas em que o jogador percorre 25 metros de campo até à baliza e remata à baliza, podendo 6) driblar, chutar, enganar o goleiro, entre outras coisas); 
  • 6)e a limitação do número de faltas por jogo e por jogador.

Tais propostas ainda muitos embrionárias, serão certamente, muitas delas, uma realidade no futebol de futuro próximo. O profissional de futebol terá que se adequar e adaptar às novas regras de jogo, mais tarde ou mais cedo, quer nos treinos quer no jogo jogado, pois a sua prestação e atuação ficará muito condicionada e mais visível para todas as pessoas que assistem a partida, para a equipe de arbitragem, os árbitros de vídeo e os espetadores.

O sistema dos árbitros de vídeo em execução nos campeonatos nacionais dos referidos países aderentes, segue o protocolo aprovado pelo IFAB, sendo acompanhado diretamente pela Universidade KU Leuven, da Bélgica, entidade que registra e produz um banco de dados para análise futura, estimando o IFAB tomar decisão definitiva sobre o uso dos VAA (ou VAR’s ou árbitros de vídeo), durante o seu seminário anual, previsto para o primeiro trimestre de 2018.

Na próxima Copa do Mundo, na Rússia, o sistema será já uma realidade, certamente, em todas as suas partidas de futebol.

Estará o jogador brasileiro (o Tite e a Seleção Brrasileira) preparado(s) para esta nova realidade? Espero bem que sim e desejo muito sinceramente que os responsáveis máximos da seleção estejam já a trabalhar, nos treinos e nos processos de mentalização dos jogadores, com base na nova realidade da arbitragem internacional de futebol e aplicando as novas tecnologias ao dispor no mercado – isso mesmo será, também, determinante para a conquista da Copa que todos desejamos que seja nossa.

Fiquem bem e que Deus vos proteja.

José Luís de Castro

Advogado / Lawyer and Senior International Advisor (especialista em Direito Europeu e Direito Público e da Energia)

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