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Sábado - 23.03.2019

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Diário Rio do Peixe

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Colunistas

De Maria Fumaça - XLV

19/09/2012 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

  Tive a sensação de que o velhinho era meio que enigmático. Depois descobri que não era só meio, era por inteiro mesmo. Muito estranho ele. Aí me lembri que nossos amigos castelhanos não dizem “- Tenho saudade de você”... eles dizem mais ou menos que “- yo extraño usted”, ou seja, traduzimos para “- eu estranho você”. Pode isso? Estranhar ser igual a “sentir saudade”... que coisa...

  Como ele estava de frente para mim e eu de frente para ele, claro, ambos nos encaramos demoradamente cara a cara. Isso tudo, respeitosamente, pois que não lhe fiz careta e nem ele para mim. E, pasmem, nenhum de nós dois piscou. Jogamos limpo deveras.

  Fui o primeiro a falar. Ia perguntar quem ele era, mas desisti. Certamente ele me diria, só depois de perguntar antes quem eu era. Assim, optei por outra estratégia coloquial. Perguntei-lhe de onde vinha, pois podia ser que tinha vindo da terra do Tchô, e ele respondeu:

– Venho de dois tempos e de largos espaços que você não pode alcançar. Não venho de um chão distante em léguas, mas venho de tempos muito longes. No terreno espaço estou em casa, mas na dimensão temporal estou muito longe de casa. São léguas passadas. Ninguém daqui alcançou as dimensões de onde venho. Vocês todos que eu vejo que estão aqui neste espaço ainda não desenvolveram a capacidade de se lançar para os meus lás espaciais, inclusive você.

  Enigmático, apelido! O cara era estupendamente misterioso! Juro que não entendi nadinha do que ele falou. E alguém aí, por acaso, entendeu?

  Continuei olhando para ele e ele olhando para mim. Quase me hipnotizou. Não fosse meu caráter firme, minha personalidade forte (he, he, he), tipo de nordestino cabra macho sim sinhô, ele teria me derrubando do banco. Pois não é que ele continuou?

- Eu estava lá atrás, num dos meus tempos passados prediletos, vendo sangues jorrarem de pescoços cortados sob aplausos degoladores do tempo contado 1894, quando resolvi cruzar a nebulosidade e chegar a um tempo para você futuro, mas para mim presente sempre, porque consigo ir lá sem sair daqui. Estava nesta viagem, de milésimos de segundos, deixando a maragataria para trás, quando decidi dar uma paradinha num tal 2012 que me chamou a atenção pelos sinais de fumaça que subiam aos céus neste Vale de rio de muitos peixes.

E continuou:

- Do ciberespaço seu recebi mensagem curiosa através da ótica, de que havia uma nova dupla personalidade vagando pelos trilhos das letras mundanas, como se estivesse estacionado na entrada da década dois do terceiro milênio escrevendo um conto de fenômenos sarcásticos e fatos passados no segundo mil anos. Aí, resolvi não ir adiante e nem voltar atrás. Parei neste 2012 e entrei nele. Procurei e não achei você. Olhei até embaixo dos tapetes.

  E nada de metáforas. Seria você a encarnação de uma metáfora? Ser ou não ser, isso está fora de questão! Então, comecei a buscar você nos anos de lá até hoje. Demorei uma imensidão de relógio, vários segundos, mas eis que, entre uma piscadela e outra, quando estava na plataforma de Herval d’Oeste senti sua presença neste vagão. E o resto você já sabe.

  Se eu já não entendia quase nada do que ele falava, nestas alturas deixei de entender tudo. Pô! o cara vinha lá de trás no tempo, ia em direção ao lá na frente e parou no meio? Mas, o que é isso? Tá maluco, cara? Teria ele vindo de algum manicômio de aí por perto? ou seria algum deus extraviado nos grãos de barro?

  Eu tinha varado uma noite a vinho e muita conversa na bodega em Volta Grande. Tinha reencontrado minha musa no Grande Hotel do seu Dobrowolski em Marcelino [ainda não consegui licença do oficial da censura drops, dopes & coidis para publicar a narrativa deste reencontro amoroso].

- Vou dar-lhe uma prova, seu moço, de que venho de lá para aqui. Dito isso, pegou uma folha de papel branco, que estava dobrada em oito, abriu – ou desfolhou – e me entregou. – Leia, disse.

  Olhando na parte de cima, identifiquei a remetente da mensagem que me chagava às mãos e aos olhos. Vinha lá de longe, de Afferden, Holand (da Holanda, Europa, meu amigo), navegando pelo ciberespaço do diariocacadorense... Quem assinava? A Angelina!!! O bilhete tinha dois parágrafos longos. Um dizia assim:

  “Caro Professor Nilson. Toda semana acesso para ler sua coluna. Adoro como você escreve, descreve e revive os antigamente. Quando chegar em Tangará, por favor, lembre do bar lá do outro lado da rua atrás da ferroviária, ou do outro lado dos trilhos, não lembro exatamente, mas quando o trem por lá parava, dava tempo de sair correndo entrar no boteco, subir naqueles bancos de bar, abanar com o dinheiro pro botequeiro e chamar: - dois sacos de beijo bahiano! o botequeiro trazia os ditos e já vinha com o troco na mão, e a gente saía correndo pra pegar o dito trem em tempo. O pior foi daquela vez em que o pai ficou no trem e a criança grande foi solita pro boteco. Não é que o trem foi fazer manobra e a dita criança, com medo de ficar pra trás, com risco da própria vida subiu no trem já em movimento, no úrtimo vagão, carcule hóme... Sorte que o pai atento viu a dita bravura da menina e correu ao encontro da criança. E ói a quantidade de vagão de 2a classe, que só tinha dos banco de madeira não acabava mais, mas valeu a pena.. Era o único boteco ao longo da linha de Caçador a Ibicaré onde se podia comprar os ditos Beijo Baihano. Nem em Caçador tinha. Só nos Tangará, lá pelos fins da década de 60. [...]

Um abraço da Angelina Kool”.
Angelina, filha do Holandês, da Holanda, dos tempos da jovem guarda!!! direto para o meu vagão do Direto...

(continua)

Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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