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Sábado - 23.03.2019

Encoerto com chuva bem isolada em Santa Catarina


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Diário Rio do Peixe

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Colunistas

DE MARIA FUMAÇA – II

30/11/2011 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

Nilson Thomé

Fui no guichê da Bilheteria e comprei o bilhete. Estou falando da Estação do Caçador, claro. Engraçada a passagem. Um pequeno pedaço de cartão, ali já impresso o local de embarque (Caçador, no caso), destino (Marcelino Ramos, claro) e valor agora convertido em cruzeiros, pois o estoque dos bilhetes em réis já tinha acabado, mas ainda tava escrito na tabela o valor: 24$900). Traduzindo: vinte e quatro mil réis e novecentos. Só. Ué? Valor já impresso? Tinha pouca inflação, cara! Mas o bilhete era “carimbado” crac-crac no verso pelo carimbador mecânico da tesouraria com a data da viagem. Os cartões eram de várias cores.

Então, decidi curtir a noitada de sábado. Tinha tempo para um chopinho no bar do Xavier e devia ter baile no Ypiranga dos alemães, ali na Boiteux (Lê-se Boatê, e não se deve confundir com boáte). Depois, iria dormir no hotel (dormitório) do Filippon, que ele me acordaria quando chegasse a hora do trem. Do hotel ao bar e ao clube em frente dava uns 500 metros mais ou menos, e a gente ia por uma ruazinha de terra que beirava a linha. O bar tava bem movimentado. Num lado, tinha o balcão e as mesas; no outro, as mesas de esnuque. Lá atrás, porta fechada, as salas do pife. E seu Xavier e a dona Êrica (que moravam em cima), serviam todo mundo. Caneca de vidro grande não faltava. Muito chope e muito palavratório. Tinha uma cadeira, numa mesa do canto, que era privativa de um tal de J. Amazonas, o poeta, que sentava ali e escrevia seus poemas.

Fui chegando, meio como quem não queria nada, e fui entrando. O porteiro me olhou a mandou ver: “- dois cruzeiros, só! Paga dois e entra”. Achei caro, mas podia valer a pena. Deu chope e deu dança. Nada de falar chopeidança. Que noitada boa. Nem conto. Colei a cintura numa alemoazinha, coxa a coxa, mais a minha insinuada na dela, do que a dela na minha, num bailado que entrou noite adentro. Bem arretada ela era. Tava bão. A bandinha estava animada e os alemões mais ainda.

Mas deu sono. E lá fui eu me recolher.

Seu Filippon bateu na porta exatamente às seis e meia, recém eu tinha pegado no sono. Paciência, vamos lá. Paguei pra ele que estava com aquela cara de quem nem a cara tinha lavado ainda, e ele me disse: - Vai lá e se tem mais atraso, volta aqui dormir mais um pouco. Gente boa o Filippon. Morreu anos depois, literalmente atropelado pelo trem, que manobrava, em frente ao seu dormitório.

Caminhei até a estação, beirando o trilho, bem pertinho, mas quase tudo ainda no escuro do finzinho da madrugada. E se... Ah, não! Sem esse se. Não tenho jeito de rico para ser assaltado aqui agora. Já tinha gente chegando. Olhei no quadro de giz, estava igual. Ou o sujeitinho de boné (parecia topete de pica-pau) não escreveu novos horários, ou os trens viriam nos mesmos horários marcados atrasados. Então, beleza.

Mala na mão, conferi os bolsos do paletó. Lencinho no lugar, bilhete no direito. Uma revistinha enrolada no bolso esquerdo, pra ler na viagem, se desse. Não comprei o gibi do Mandrake. Na calça, a carteira, surrada, com os cruzeiros e documentos, foto da mãma, e um papel dobrado em quatro com o convite para ir a Marcelino Ramos. Chapéu Ramenzoni de feltro marrom desamassado na cabeça. Sapato Clarck preto engraxado. Barbeado, penteado, com glostora no cabelo. Tudo ótimo.

Oito horas, e nada. Cadê o trem? A gente tinha que ficar na sala de espera, sentado quieto no banco de madeira. A porta grande e dupla de ferro ficava fechada, para ninguém ir à plataforma antes da hora. Vi um sujeito, que tava fumando seu cigarrinho de palha fedida, que levantou, fez um bochecho e deu uma baita “guspida” na bacia do cuspidor. Coisa normal. Pior se cuspisse no chão, na frente de todo mundo ali. Até as damas aplaudiam o uso do escarrador, um tipo de pia num suporte de ferro, que existia só pra isso. Cuspidor ou escarrador público, ora, ora.

De repente, o sinal. Uíbu, uíbu!!! Lá vinha ele. Estava chegando o Direto vindo do norte, rumo ao sul. A gente ali dentro se postou malas na mão, e abriram a porta e da plataforma via-se o trem chegando, farol aceso como se pretendesse iluminar toda a estação, tocando o sino demoradamente plin-plin e mais plin-plin e abusando do apito uíbu uíbu sem parar. Bem, era mesmo hora de acordar todo mundo na vizinhança, ainda que manhã de domingo. Que visão bonita ver o trem chegando, barulhento, muita fumaça na chaminé.

O trem parou na plataforma da estação, coberta, na altura da escada dos carros, para conforto dos passageiros dos vagões de primeira, que estavam mais frente. Vagões de segunda fora dela e o pessoal tinha que caminhar para chegar a eles. Se chovesse... ai, ai, ai. Ainda bem que estava nublado, mas sem chuva.

(continua)

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Contato: nilsonthome@hotmail.com

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Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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