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Colunistas

DE MARIA FUMAÇA - XXVIII

30/05/2012 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

   Gente! Nem acredito que até aqui consegui escrever exatos vinte e sete capítulos de uma historiazinha destinada a ser encarada no rol literário como um conto. Não um conto de fadas, claro. Mas um conto, assim como eu conto historiazinhas e canto no chuveiro num canto no banheiro. Rimou? Gostou?

   Eu ainda tinha um final de tarde, mais uma noitada e mais ainda uma manhã em Marcelino Ramos, antes de pegar o trem pro Caçador. Já tinha pago (há quem diga “pagado”) minha promessa a Nossa Senhora da Salete. Pô! e então lembrei, puto da cara: aqui no hotel, ontem, tomei o maior fora da minha vida. Tava com tudo, ela quase peladinha pra mim e levei cano! Maldito marido! A orientação machista dos machos diria que: Porque seria que naquele tempo e lugar toda mulheraço inteligente, boa a bonita já tinha marido? E marido que aparecia nas horas mais impróprias... Saco! Pra mulher gostosa não devia existir marido! Como se isso fosse possível...

   Impossibilidades sexualmente intransmitíveis a parte, eu estava ali, ainda, vagando pelas ruelas do Marcelino, buscando alguma coisa, qualquer coisa, para passar, melhor, para encher o tempo. Foi ai que me olhei e me lembrei que estava com as roupas sujas, desde o Capinzal. Vestia um terno meio sujinho e não tinha outro para trocar – lembram? – tudo se perdera no fogaréu lá. Ora, vaidades à parte, precisava me arrumar. Dinheiro eu tinha. A passagem de trem pro Caçador tava paga (ou pagada). Dava para o hotel, para a comida, e, quem sabe, dependendo da pechincha, até pra uma roupa nova, ao menos uma camisa nova, quem sabe uma calça nova. O sapato ainda dava pro gasto. O chapéu tava amassado e diante disso, quando de volta, eu ia tentar enrolar o seu Jorge João e devolver, pra trocar por um novo.

   Marcelino ainda não tinha loja (nem CDL, muito menos SPC). Fui no maior armazém do lugarejo, ali perto do moinho. Entrei. Olhei pra frente e para os lados. Não tinha (havia) ninguém. Silêncio total, vazio mais total ainda. Cheguei no balcão e bati com os dedos, assim como quem bate à porta, para me anunciar. Afinal, ali estava um comprador em potencial!!! Inédito!!! Bati uma, duas vezes.

   Mai diós. Engoli em seco toda a saliva da minha boca. Por trás da porta, escondida por uma cortina, saiu ela. Para me atender. Ela, um mulheraço, como eu jamais tinha visto. Botava a outra, que foi embora com o marido, no bolso, na bolsa. Era tal como uma visão (ou uma “visage”, diriam os caboclos do Contestado) surpreendente. Moreninha de leve, tipo menininha, cabelos castanhos compridos que envolviam o pescoço, bochechuda até onde as bochechas são sensuais, olhos verdes... linda! linda! ombros à mostra, camiseta transparente, seios empinados, sorriso colgate espetacular. E veio me atender, gente!!! Quase derreti.

   Gostaram de descrição dela? Pois então esqueçam. Atrás dela veio o bruto, o feio, o marmanjo, o mal encarado, horrível, brutamontes... seu marido. Nem deixou ela falar. Só no olhar, ele percebeu que eu admirava o que via (nela), que ela acendia meus estopins e poderia acalentar meus instintos selvagens. E quando ele, com aquele carão, perguntou o que eu queria, só me restou dizer... que estava passando por ali e não queria nada! Saí ligeirinho e de fininho!!!

   Na rua, encontrei de novo o seu Rouxinol. Faceiro, ele tava, quando veio me dar um abraço coronelístico. Eu estava tão brabo com a furada de expectativa no armazém, que resolvi me vingar da má sorte. E ele seria a vítima. Então...

- Sabe, seu Rouxinol, me deixa lhe contar uma passagem, de uma estória que aconteceu com um cidadão lá nas bandas de Campos Novos.

- Conta, filho, conta – aquiesceu ele – ao que mandei ver:

- Por estes dias, teve um cara que, numa noite, depois de aprontar todas na zona, foi pra casa e entrou em casa, super bêbado, quebrando cristaleira, derrubando mesa e cadeira, subiu a escada, entrou no quarto e se estirou na cama ao lado da esposinha. De manhã, acordou sozinho, preocupado. Imaginava até que ia apanhar da mulher, pelas aprontadas e quebradas da madrugada. Desceu a escada, atento, mas encontrou tudo limpinho, mesa com café da manhã bem posta, tinha café com leite, suco de laranja, manteiga fresca, pão mais fresquinho ainda e feito na hora, pedaços de mamão e de melão cortados e alinhados na travessa e, em cima da mesa, um bilhete pra ele, que dizia com todas as letras: “Bom dia, meu amor. Um beijo. Te amo”.

   O cara, que esperava pelo pior, lembrando a noitada na zona, não acreditou no que via. Aí, na salinha, viu sua filha pequena lendo um livro. Chegou nela de mansinho e perguntou: - Filha, cadê sua mãe? O que aconteceu aqui? Está tudo tão limpinho e tão bão... E ela respondeu:

- A mãe teve que sair, mas me contou. Você chegou ontem à noite podre de bêbado, fedendo pinga, e deitou na cama ao lado dela. Aí ela acordou. Vendo seu estado, lastimável por sinal, resolveu tirar sua roupa para você dormir melhor. Quando foi tirar sua calça e cueca, aí você disse pra ela, pensando que ela era uma outra: - Por favor, senhora, não tira a minha roupa, sou homem casado e amo muito minha mulher!!!

   Com essa, seu Rouxinol balançou a cabeça e se mandou. E eu me vinguei!!!

(continua)

Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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