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VIDEIRA

Infância perdida – A luta de Kemilly contra a leucemia

“Mãe e pai eu peço que vocês aproveitem esse tempo com sua filha, se despeçam porque essa pode ser a última noite dela”

16/02/2019 - 18:27:40 - Atualizada em 17/02/2019 - 11:14:55
Jornal Folha

Kemilly Clara Bertotti tinha dois anos de idade quando a médica do Hospital Infantil  Joana  de Gusmão em Florianópolis deu esse diagnóstico a seus pais. Nesse momento um turbilhão de emoções tomaram conta de Rosinha Aparecida de Oliveira, mãe de Kemilly. Sem dúvida a maior de todas elas era a de esperança e fé.

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que por ano surgem cerca de 12.500 novos casos de câncer infantil. Por ser capaz de aumentar as chances de cura em até 75%, a detecção precoce é considerada uma das principais armas no combate a esse mal.

Para conscientizar a população sobre a doença, nasceu o Dia internacional de luta contra o câncer na infância, comemorado no dia 15 de fevereiro. Um dos objetivos da data é alertar pais – e até mesmo a comunidade médica – para a importância de reconhecer os sintomas da neoplasia o quanto antes, já que muitas vezes eles podem ser confundidos com outros problemas frequentes nessa fase da vida.

Até os dois anos Kemilly era uma criança saudável, esperta e brincalhona como todas as outras nessa idade. Sua mãe Rosinha e seu pai Clair Bertotti trabalhavam fora e ela estuda em uma creche do município. Quando Kemilly completou 2 anos e 3 meses Rosinha percebeu que alguma coisa estava errada.

“Ela começou a ficar chorona e apareceram umas manchas no corpo dela que pareciam picadas de inseto, foi aí que começou nossa luta. Eu levei a Kemilly no pediatra do postinho do bairro, ele examinou e disse que ela estava com uma alergia à algum alimento. Prescreveu um antialérgico e mandou pra casa. Dois dias depois ela continuava com as manchinhas, só que dessa vez haviam também marcas roxas. Perguntei para a professora da creche se ela havia caído ou se machucado e a professora disse que não.  Levei novamente no postinho e o médico me disse que ela era saudável, que eu estava querendo achar doença nela, mandou continuar com o antialérgico e ir pra casa. No outro dia minha filha estava com a barriga toda inchada. Quando vi aquilo me desesperei e corri para o postinho outra vez. 

Ao me ver o médico disse: “você de novo?!” e nem quis olhar minha filha. Eu insisti, fui até a porta do consultório e pedi para ele olhar a barriga dele. Vendo o inchaço ele me encaminhou para exames de urgência. Após o resultado dos exames fomos encaminhados as pressas para Lages. Mais exames foram feitos e a médica que nos atendeu em Lages me passou o diagnóstico: “mãe, sua filha está com leucemia”. Eu não entendia muito bem sobre a doença então achei que fosse uma anemia mais forte, que ela iria se tratar em casa. Porém ela me disse que teria que transferir minha filha para Florianópolis e foi ai que eu entendi que o que minha filha tinha era câncer” lembra Rosinha.

Os minutos que se passaram depois dessa notícia foram cruciais para o tratamento de Kemilly. De helicóptero ela foi levada para o Hospital Infantil  Joana  de Gusmão em Florianópolis. Lá ela iniciou o tratamento de quimioterapia, porém a evolução não estava dentro do que os médicos esperavam.

“A doutora que atendeu a Kemilly naquele dia me explicou que o caso dela era grave. Ela não estava reagindo a medicação e disse que ela poderia não passar daquela noite. Imagine uma mãe ouvindo isso. Meu sonho sempre foi ter uma menina, queria vesti-la como uma boneca com laços e vestidos. Eu trabalhava desde que ela tinha quatro meses para dar uma condição melhor pra ela. As vezes eu chegava em casa e ela já estava dormindo. Nessa hora, quando eu senti que talvez não tivesse mais um dia com a minha filha meu sentimento foi de revolta. O que eu fiz? Porque comigo? Eu pedi pra Deus que me desse mais tempo com a minha filha” fala emocionada Rosinha.

As horas foram passando e os dias forma mostrando que a força e vontade de viver de Kemilly eram muito maiores do que qualquer diagnóstico. Após passar seis anos em tratamento, com quimioterapia e demais medicamentos Kemilly entrou em uma fase chamada de manutenção, onde os medicamentos estavam sendo reduzidos e o corpo estava reagindo.

“Entramos na manutenção e a Kemilly começou a ter uma infância normal. Eu tinha medo de tudo no começo. Medo que ela se machucasse, que ela pegasse alguma bactéria. As pessoas me diziam pra deixar ela viver, ser criança, se sujar, brincar, cair, assim como toda criança. Aos poucos eu fui deixando ela viver. Ela estava frequentando a escola regular, o cabelo já tinha crescido, foi uma vitória” lembra a mãe.

“A Kemilly já tinha oito anos. Estava bem, nossas idas para Florianópolis tinham reduzido bastante. Uns dias antes do dia das crianças ela começou a sentir dores no corpo e teve diarreia. Eu levei ela no médico do postinho que disse se tratar de uma virose. Eu estava com o coração apertado, pedi se a doença não poderia ter voltado e ele me pediu para ficar tranquila. Receitou um antibiótico e pediu para que fizéssemos o tratamento por cinco dias. O antibiótico não havia terminado quando num dia ela começou a reclamar muito de dor na perna. Levei novamente no postinho e pedi um exame de sangue. Após algumas horas depois da coleta o laboratório nos ligou novamente e pediu para repetirmos o exame porque havia uma alteração. Nessa hora eu já sabia que a doença havia voltado” conta.

Kemilly ficou internada em Videira por alguns dias e foi transferida para o Hospital Infantil Joana de Gusmão onde novamente teve que iniciar o tratamento com quimioterapia. 

“O cabelo dela caiu. Ela inchou outra vez, não tanto quanto da primeira vez, mas ela teve que passar mais uma vez por esse processo. A médica encaminhou a Kemilly para a fila de transplante, que é o protocolo para os casos de reincidência. Os parentes até quarto grau fizeram o teste de compatibilidade mas não encontramos ainda um doador ” conta Rosinha.

Pessoas com idade entre 18 e 55 anos, em bom estado de saúde, sem doenças infecciosas ou incapacitante, podem fazer parte do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). O doador só é acionado quando aparecer um paciente com a medula compatível.

Ao saber que Kemilly estava na fila de transplante alguns membros da comunidade se mobilizaram para fazer uma campanha para que fosse encontrado um doador compatível. Porém não é possível escolher para quem doar, sendo que o voluntário deve estar no Redome e sendo encontrado um paciente que seja compatível é solicitada a aprovação da doação. Mesmo estando no Redome caso a pessoa se arrependa e não queira fazer a doação ela pode desistir do procedimento.

O tratamento de Kemilly continua e ela está estável. A doença não progrediu, mas ela continua com as quimioterapias. Mesmo já tendo passado por tantas dificuldades ela mantem a alegria de viver. “Eu gosto de comer, brincar, me maquiar. Não tenho mais medo de agulha, já me acostumei. Quando eu crescer quero ser médica para tratar crianças que tem câncer. Quero ser uma médica querida assim como as que cuidam de mim” diz Kemilly.

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