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UFC

Júnior Cigano abre o jogo: vida nos EUA, filho, rivais e doping

Notícia de resultado positivo em exame, por uso de diurético, caiu como uma bomba na sua vida, afirma o lutador catarinense, que falou sobre o tema delicado e outros assuntos

11/10/2017 - 11:26:41 - Atualizada em 11/10/2017 - 23:23:19
Combate

Era uma sexta-feira, e Júnior Cigano terminava mais um dia de treino em Coconut Creek, na American Top Team. Ele já se arrumava para voltar para casa, na vizinha Coral Springs, onde mora com a família no estado americano da Flórida, quando o celular tocou. Era Ana Cláudia Guedes, sua advogada. A notícia, num primeiro momento, deixou o lutador peso-pesado atônito. Parecia impossível acreditar: "Como assim caí no doping? Impossível, não tomo nada, que absurdo é esse?". Foram as primeiras palavras do ex-campeão do UFC ao saber da notificação da USADA (Agência Antidopagem dos EUA) por doping, no último dia 18 de agosto.

- Até chegar em casa achei que era sacanagem, não estava acreditando. Encontrei minha esposa e ela já falou: "A USADA te notificou, você caiu no doping". "Mas não é possível, pelo amor de Deus, no que fui cair?". E comecei a procurar informação. Ligamos para o pessoal do UFC no outro dia e nos mostraram que tinha sido um diurético. E uma quantidade até muito pouca, nem agiria como diurético no meu corpo. Até demorei muito para fazer xixi e não estaria agindo como diurético no dia do teste. Mas eles encontraram a substância e, uma vez que encontraram, a regra para um é a regra para todos. Por menor que seja a quantidade encontrada. O que mostra certamente que foi uma contaminação. Eles não tinham o que fazer a não ser me notificar e me tirar da luta - afirmou o lutador, em Salvador.

A luta em questão aconteceria 22 dias depois, contra Francis N’Gannou, no UFC 215. Cigano foi testado com exame de sangue e urina em 12 de julho, e os testes foram negativos para a presença de qualquer substância proibida. No dia 10 de agosto, a USADA fez novo, desta vez apenas de urina. Resultado: foi encontrada uma substância chamada “hidroclorotiazida”, um diurético proibido pelo código da WADA (Agência Mundial Antidoping) por mascarar ou dificultar a pesquisa do uso de substâncias dopadoras.

- Se estivesse tomando alguma coisa e quisesse esconder, usaria muito diurético para esconder a droga. Uma mínima quantidade num intervalo de um mês (entre os exames) não esconderia nada, teria que usar muito. Mas está lá na regra da Usada, consta como substancia proibida, eles encontraram na minha urina e como qualquer um estou respondendo por isso. Hoje, independentemente de ser justo ou não, tenho cumprido a minha parte, é o melhor que posso fazer. Até para colaborar para que eles imponham isso cada vez mais e mantenham o esporte limpo (...). Mas as pessoas não diferenciam se foi uma contaminação mínima por diurético, que não te beneficia em nada, a não ser perder peso, e para que vou tomar isso? Sou peso-pesado, não tem sentido nenhum tomar diurético.

Júnior Cigano sempre foi um defensor público do trabalho implantado pela USADA junto ao UFC, que começou em julho de 2015. Quando alguém levantava suspeitas sobre os lutadores em geral, o lutador catarinense fazia questão de dizer que nunca usou nenhum tipo de substância proibida.

- Tudo nessa história é meio que absurdo para mim. Estou conscientemente tranquilo. Sempre que alguém comenta de luta ao meu redor, fala: "Mas para ser campeão, precisa usar alguma droga, todos os caras usam". E eu enchia o meu peito para dizer que não é assim. Nas minhas palestras, quando falava com a garotada, sempre enchi meu peito - e continuo enchendo - para dizer que não. Me tornei campeão do mundo sem nem saber o que é esse tipo de droga, como anabolizante, e isso continua até hoje.

Com a notícia do resultado positivo no seu teste de urina, Júnior Cigano passou a se questionar quanto ao trabalho da agência americana. E ainda ressaltou a dificuldade de identificar a origem da substância encontrada em seu corpo.

- Fiquei devastado logo no início. Sempre lutei a favor da USADA, sempre disse o quanto a apoio, e o quanto apoio o esporte sem drogas, o esporte justo. Sempre joguei o jogo limpo, tenho consciência tranquila. Agora tudo está sob investigação, mas esse é outro problema, porque não faço ideia de onde veio isso, e agora cabe a mim provar minha inocência, e isso é meio estranho. No início pensava muito comigo mesmo: "Para que a USADA está lá? Para trapaceiros ou para a galera que joga certo e acaba como vítima?". Óbvio que estou sendo vítima de alguma situação que eu também não sei ainda o que é. Estou recebendo um apoio imenso do pessoal não só da USADA, como do UFC também, na busca por respostas. Essa coisa de não saber a resposta é um absurdo, isso te corrói por dentro, parece que te arranca a alma. Sempre falei muito alto contra tudo isso, e vou continuar falando, mas a única coisa que me pergunto hoje é isso: "A USADA está lá para os trapaceiros ou para quem é inocente e acaba caindo numa situação dessa?”.

Cigano, de 33 anos, contratou um advogado especialista no assunto para cuidar da questão. Ele lamenta que sua imagem tenha ficado manchada com as notícias veiculadas sobre o resultado do primeiro teste. O lutador pediu a contraprova, mas não tem esperanças de que aconteça um resultado diferente.

- O prejuízo para a minha imagem foi impressionante. As pessoas não entendem e já consideram como droga, muitos já me taxaram como drogado. Nunca, nunca na minha vida imaginei que passaria. Tanto que falava alto quando falava sobre isso. Não faço uso desse tipo de coisa e não preciso. No início da minha carreira, logo depois da primeira luta, parei de beber, não saio na noite, cuida da minha alimentação, minha esposa faz um trabalho fenomenal, já é uma nutricionista quase, ela faz tudo seguindo as orientações do meu nutricionista, cuido da minha alimentação, cuido da minha suplementação, cuido dos mínimos detalhes para chegar na hora da luta e captar o meu máximo.

Com um cartel de 18 vitórias e cinco derrotas, Júnior Cigano ainda lembrou o lado financeiro envolvido na questão do doping. Se não lutar, não ganha.

- Sei que sob investigação você não pode lutar, mas isso é extremamente prejudicial. Todos sabem que nós lutadores só recebemos quando lutamos. Fora isso, não tem nem patrocínio, o UFC não permite mais. Ou seja, a gente só recebe quando luta. Se você ficar um ano sem lutar, é um ano sem receber. E vive como? Como sustenta sua família? E o que dói é saber da minha inocência, e de repente algo assim acontece comigo. Não estou dizendo que sou diferente de ninguém, ao contrário, regra para um é a regra para todos. Mas me cuido, e a gente está indo fundo nessa história, a verdade tem que sair de algum lugar. Estamos sendo punidos antes de sermos julgados. Perceba o tamanho desse peso, uma imagem fortalecida quanto a isso (na defesa da USADA). E minha imagem foi prejudicada no mundo inteiro, as pessoas estão duvidando de mim.

No próximo dia 28, em São Paulo, o UFC realizará mais uma edição, e Júnior Cigano participaria da transmissão da TV Globo. Com a notificação, acabou fora da programação.

- Sou comentarista da Globo e não vou poder fazer esse evento no Brasil. Numa conversa extremamente tranquila com a Globo - e faz total sentido -, chegamos à conclusão de que não seria interessante que eu participasse sob investigação, e não poderia tomar o tempo da programação para falar de mim. Chegar lá sem dar uma resposta para as pessoas ficaria complicado também. Concordei plenamente e aceitei. É um prejuízo extremamente grande, na minha vida e na minha carreira. Me atingiu muito forte. Mas tenho plena consciência da minha responsabilidade enquanto atleta e como pessoa. Eu não falo as coisas, pratico o que eu falo, não sou político. Aos poucos, tudo vai se esclarecer, mas demanda tempo.

O ex-campeão peso-pesado do UFC também disse ter ciência de que esse fato poderá ser usado contra ele pelos rivais. É outra situação que vai ter que aprender a lidar, diz ele.

- Uma das coisas complicadas é essa, ouvir provocações de caras que tempos atrás andavam cheios de coisa, todo complicado, e nunca foram pegos, e agora você, que sempre jogou o jogo justo, acaba prejudicado (...). Quem tentar me acusar de alguma coisa vai ser pior para ele, porque vou bater mais. Não quero nem nocautear rápido, quero bater muito por estar falando besteira - prometeu.

Na mesma conversa, Júnior Cigano falou sobre a luta com Miocic, possíveis rivais para a volta - quando cutucou Fabrício Werdum -, situação da divisão peso-pesado do Ultimate, vida na Flórida e a chegada do filho Bento, que nasceu em março deste ano.

Explicações para a derrota diante do campeão Stipe Miocic

- Não vi muito (a luta de novo), vi umas 60 vezes só (risos). Foi frustrante. Acabou entrando a mão forte, sabia que o Miocic é um cara que bate muito forte. O que pequei foi que, apesar de me sentir bem andando para trás, não ofereci nada em troca, ele só atacava e não recebia nada. Consegui alguns bons chutes, mas além disso nada demais, e o único golpe que realmente entrou foi o que me finalizou. Os outros não senti nada demais. Estava rodando, sabia que em algum momento ele ia diminuir o ritmo, é normal. E o meu pecado foi virar a cabeça, se tomo o golpe de frente no rosto provavelmente sentiria, mas continuaria na luta, mas estiquei o braço e virei a cabeça, pegou na orelha, embaixo, e essa região é mais sensível. Levei uma leve apagadinha, e quando voltei o (árbitro central) Herb Dean estava na minha frente já. Foi triste, é uma situação horrível, mas mérito do Miocic que soube aproveitar o momento dele, caminhou para frente, buscou a luta, foi agressivo. Ele evoluiu muito, e me surpreendeu. E no mundo das lutas, quando você é surpreendido, normalmente você é nocauteado. Surpresa não é bom no mundo da luta.

Qual seria a melhor luta para a volta?

- Todos sabem que não escolho adversário, isso é uma coisa que tenho repetido há muitos anos. Muitos falam isso, mas na prática não fazem. Muitos. Realmente luto com qualquer um, tanto que ninguém queria lutar com N’Gannou, e eu falei: "Tá maluco, essa é a luta que eu quero, joga aí!". Não escolho adversário, até porque sei da minha capacidade e do meu potencial. E se não sou o campeão hoje é porque alguma coisa está errada, as coisas não estão se encaixando direito e não estou sabendo administrar as situações e colocar tudo junto para funcionar. Acredito muito nisso, e é assim que vou continuar em frente. A minha vontade na minha volta é enfrentar o N’Gannou, até porque devíamos ter lutado, não só porque queria lutar com ele por estar num momento bom, mas em respeito ao nosso combate que devia ter acontecido. Mas, na verdade, adversário não falta hoje. O N’Gannou seria a luta que devia ter tido. O (Alistair) Overeem seria uma boa luta para a volta, como o próprio Caín Velásquez, tenho vontade que tenho com ele novamente, mas acho que seria pelo título ou em um momento específico da nossa carreira. E tem o nosso amigo gaúcho Werdum, mas eu já desisti dessa. “Acho” (que ele não quer)? Como assim? O cara já negou três vezes (a luta), óbvio que não quer. Para o UFC seria uma luta muito interessante uma revanche entre nós. São opções. Acho que a primeira seria o N’Gannou, e depois o Overeem, Velásquez ou Werdum. Ou qualquer outro, hoje em dia a nossa categoria está vivendo um grande momento.

Situação da categoria peso-pesado do UFC

- O que aconteceu de diferente na categoria foi o Miocic. E é uma coisa que tenho também guardada em mim aqui, mas não é o momento de falar disso. Acho que ele vai se manter campeão por um bom tempo, até eu chegar lá de novo e tirar dele. Fora isso, não vejo ninguém com potencial. Claro que luta é luta e tudo pode acontecer, e surpreender como o Miocic fez. Foi o que fugiu à regra e começou a devastar a categoria e vencer todo mundo, é um cara diferenciado. Mas alguém que venha para surpreender? As pessoas dizem que a categoria dos pesados está parada, mas não é que está parada, novos nomes estão surgindo, mas não têm sido capazes de tirar quem está lá. O pessoal que ocupa o topo é sólido, forte, e se mantém lá por muito tempo. Mas uma coisa é certa: não faltam lutas boas.

Vida nos Estados Unidos

- Tenho gostado muito de morar lá, é perto da academia, fica a uns 15 minutos. É uma qualidade de vida muito boa, principalmente como atleta. Encontro a suplementação que preciso, bons alimentos, descanso bem, e têm diferentes tipos de recuperação, o que é muito difícil ter no Brasil. Uma das coisas mais difíceis para o lutador de MMA é se recuperar bem para o próximo treino. E para a minha vida pessoal tem sido muito benéfico estar lá. Tenho também um ótimo time atrás de mim, com uma estrutura e treinadores incríveis. No conjunto da coisa, tudo funciona melhor lá. Por incrível que pareça, mesmo com o dólar mais caro, acabo gastando um pouco menos lá. No Brasil, até fazia a coisa acontecer, mas gastava bastante, trazia treinadores, mantinha eles na cidade, e ia embora uma boa parte do dinheiro. E tinha meus patrocínios, que me possibilitavam fazer esse tipo de coisa, hoje em dia isso é impossível. Hoje seria impossível fazer um camp aqui. E a Flórida está perto. Muitos falam que Miami é a melhor cidade do Brasil (risos). Em oito horinhas estou lá. Às vezes as passagens de lá para cá são até mais baratas que as internas aqui.

Aposentadoria bem distante no MMA

- Amo fazer o que faço, amo lutar, não é a minha hora de parar com isso. Tenho 33 anos, tenho muita coisa para fazer ainda. Amo estar lá, amo ouvir as pessoas me dando palpites de como lutar (risos). Isso tudo que me motiva todo dia.

Filho Bento, de apenas sete meses

- Essa é a parte maravilhosa. No início (da notícia do doping) fiquei devastado, e o meu filho foi uma bênção, Deus parece que sabia que ia acontecer algo assim e que eu ia precisar dele. Com a minha esposa Isadora e ele temos vivido coisas incríveis. Estou aproveitando ele, e trabalhando em outros projetos enquanto não volto. É muito difícil ficar longe, a saudade é grande.

Presença do filho para a luta com Miocic

- Fui na segunda-feira da semana da luta (para Dallas) sozinho. “Mermão”...em algumas horas que fiquei longe a sensação foi horrível. Ele estava com minha esposa e a mãe dela, mas tinha que estar perto dele, e fiquei extremamente angustiado, tanto que na terça falei: "Venha, não dá não". Ele chegou e foi incrível. Pelo menos relaxei. Não sei se isso foi positivo ou negativo, mas naquele momento era necessário, era o que eu precisava, ter ele perto de mim. Ele era tão pequenininho, não tinha nem dois meses!

Sucesso na função de pai

- Ela (a esposa, Isadora) com certeza faz a maioria das coisas, mas sempre que posso ajudo. Gosto de trocar fralda, dar banho, faço tudo já. Daqui a uns dias faço vídeo de YouTube ensinando a trocar fralda, a acalmar o bebê, já estou profissional (risos).

Filho em casa nas próximas lutas

- Mas para as próximas lutas ele não vai. Para essa com o N’Gannou o plano já seria não levá-los, só o time. A gente tem que entender uma coisa - e até pequei um pouco nisso eu acho: ali é guerra, é matar ou morrer. Uma derrota acaba afetando muito a nossa carreira, nosso esporte é novo e até injusto com os atletas, uma vitória te coloca lá em cima e uma derrota te coloca lá embaixo. O foco ali tem que ser de guerra, e estou pronto para isso. Essa foi a nossa estratégia, estava trabalhando o meu psicológico mesmo para isso, chegar como um “sniper” contra o N’Gannou, atirar bomba para matar. A gente não pode confundir as suas situações. Nas próximas lutas ele fica em casa quietinho com a mamãe, e vou lá e faço meu trabalho e volto para cuidar dele.

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