Youtube Twitter Facebook Instagram

Quinta-Feira - 21.03.2019

Início do Outono às 18h58min (Hemisfério Sul)


MÍNIMA: 16º - MÁXIMA: 26º

Diário Rio do Peixe

Quinta-Feira - 21.03.2019

Início do Outono às 18h58min (Hemisfério Sul)


MÍNIMA: 16º - MÁXIMA: 26º

CRÔNICA

Leônidas Coelho de Souza – O primeiro Prefeito de Caçador

Engenheiro Agrônomo. Vereador em Montenegro (RS), Vereador em Chapecó (SC), Prefeito Municipal em Caçador (SC), em Bom Jesus (RS) e em Marcelino Ramos (RS). Interventor em Joaçaba (SC). Deputado Es...

18/06/2014 - 19:46:27 - Atualizada em 18/06/2014 - 21:37:35
Diário Caçadorense

Nilson Thomé, historiador


Engenheiro Agrônomo. Vereador em Montenegro (RS), Vereador em Chapecó (SC), Prefeito Municipal em Caçador (SC), em Bom Jesus (RS) e em Marcelino Ramos (RS). Interventor em Joaçaba (SC). Deputado Estadual em Santa Catarina. Coronel da Guarda Nacional e Chefe de Estado Maior de Batalhão do Exército. Revolucionário Getulista. Construtor de estradas e colonizador de terras no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná.
Em, 1934 ele liderou o movimento pró criação do Município de Caçador, no Centro-Oeste do Estado de Santa Catarina, do qual veio a ser seu primeiro Prefeito.
Ainda hoje – 79 anos depois – seu nome não é lembrado pelas autoridades deste Município, sequer na denominação de um logradouro público (praça, largo, ponte, rua, prédio, avenida, parque, etc).
Este, um resumo do curriculum vitae de 87 anos da folha de serviços prestados por um cidadão ao Sul do Brasil, inexplicavelmente ignorado na terra que construiu.

Leônidas Coelho de Souza

  O cidadão Leônidas Coelho de Souza nasceu em São João do Montenegro (RS) a 18 de junho de 1889. Terceiro filho de Albano Coelho de Souza e de Idalina Brochier Coelho de Souza, cursou as Primeiras Letras em Montenegro. Antes de completar 18 anos, trabalhou na Estrada de Ferro Montenegro-Caxias do Sul, de dezembro de 1905 a 31 de janeiro de 1910, quando embarcou para Piracicaba, para estudar agronomia.

  Formou-se em Engenharia Agronômica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, no Estado de São Paulo, em 8 de novembro de 1912, após o que retornou ao Rio Grande do Sul. Com seu pai, Leônidas trabalhou na Estrada de Ferro São Pedro do Sul-São Borja, na construção do Ramal Dilhermando de Assis-São Borja, de dezembro de 1912 a 28 de fevereiro de 1915. Neste tempo, integrou o 34º Batalhão da Reserva da Guarda Nacional, da Comarca de Caxias do Sul, como Tenente-Secretário. Também trabalhou na Estrada de Ferro Jacuhy, de junho de 1917 a março de 1919. Com o pai e irmãos, integrou a Empresa Irmãos Coelho de Souza Ltda., por eles fundada no ano de 1919 em São Jerônimo.

  Em outubro de 1919, com amigos, o agrônomo Leônidas Coelho de Souza empreitou a construção da estrada de rodagem em Santa Catarina, em Campos Novos, entre Erval Velho e o Rio Canoas (hoje, trecho da BR-282), com 81 km de extensão, cuja obra foi concluída em janeiro de 1923. Leônidas retornou ao Rio Grande do Sul, onde, iniciando-se nas atividades político-partidárias, no dia 9 de julho de 1924, com 1.471 votos, foi eleito Vereador, membro titular do Conselho Municipal de São João do Montenegro.

  A 23 de maio de 1925, em Porto Alegre, participou do corpo acionário da Cia. Territorial Sul Brasil, empreendimento este que em seguida foi transformado em sociedade anônima. A Companhia Territorial Sul Brasil S/A, como nova empresa construtora e colonizadora, incorporou a Empresa Construtora e Colonizadora Oeste Ltda., com as terras devolutas na região de Chapecó, que havia recebido do Estado de Santa Catarina, a partir do que a empresa passou a deter mais de um bilhão de metros quadrados de terras para colonização no Grande Oeste Catarinense, do Vale do Rio do Peixe à fronteira com a Argentina.

  Com os haveres da Empresa Colonizadora Oeste Catarinense Ltda., em 1926, a família transferiu a empresa Construtora e Colonizadora Irmãos Coelho de Souza Ltda., estabelecendo-a em Rio Caçador, então nova moradia de Leônidas Coelho de Souza, em companhia da esposa, Dona Helena e filhos, e também dos irmãos Carlos Augusto, Solon, e Licurgo e duas irmãs, com os cunhados José Garibaldi da Rocha Timm e Artur Dreyer. Seis anos mais tarde, entre 1932 e 1933, aportam em Caçador mais dois irmãos: Djalma e Herculano, juntamente com mais três irmãs e os cunhados João Francisco Batista, João Cândido Batista e Antonio Batista.

  Em 1926, Leônidas Coelho de Souza foi eleito Vereador no Município de Chapecó, sendo Vice-Presidente da Câmara, cargo que desempenhou durante o ano de 1927, enquanto ali atuou como colonizador de terras. Por volta de 1928, estava de retorno a Rio Caçador, onde foi um dos propugnadores pela instalação de um Tiro de Guerra e do Ginásio Aurora, o primeiro do Oeste Catarinense neste nível de ensino, do qual veio a ser Inspetor Escolar durante dois anos. Em 1928, foi designado pelo município de Cruzeiro (Joaçaba) para organizar o quadro urbano da sede distrital da Vila Caçador, quando então abriu os trabalhos pró-emancipação do futuro Município de Caçador. Em Cruzeiro, trabalhou como Secretário Municipal e, interinamente, foi seu Interventor Municipal (Prefeito, na época) em julho e em dezembro de 1932.

  A empresa, organizada pela família, dedicada à abertura de estradas e colonizadora de terras, abriu a estrada pioneira de Caçador a Palmas, via Taquara Verde, o trecho da Estrada Estratégica Matos Costa-Palmas, via General Carneiro, e trechos de estradas entre Joaçaba e Lages (atual BR 282). Neste tempo, os irmãos colonizaram 21 mil alqueires de terras, em Santa Catarina e no Paraná, propriedades havidas do Estado em pagamento pela construção de diversas estradas, logo se revelando grandes empreendedores.

  Em 1930, Leônidas Coelho de Souza estava em São João, atual cidade de Matos Costa (SC), abrindo estrada interestadual (Estrada Estratégica que ligaria Porto União da Vitória a Palmas), quando eclodiu a Revolução Getulista. Ali e em Caçador, com a família, rapidamente organizou os batalhões patrióticos da antiga Guarda Nacional. Na patente de Tenente Coronel, com 880 homens controlou a linha férrea, São Paulo-Rio Grande, de União da Vitória, no Rio Iguaçu, a Marcelino Ramos, no Rio Uruguai, viabilizando, em outubro, a passagem segura por Santa Catarina de Getulio Vargas até São Paulo e Rio de Janeiro.

  Durante o período revolucionário-constitucionalista de 1932, agora com o posto de Coronel, Leônidas foi nomeado Chefe do Serviço de Engenharia da Coluna General João Francisco, das Forças do Exército, atuantes na área de Jacarezinho (SP). A 1º de novembro assumiu interinamente a Chefia do Estado Maior da Coluna, em substituição ao comandante efetivo, Coronel Moreira Lima. Devido à dissolução da coluna, foi dispensado a 7 de novembro de 1932.

  Em 1933, liderou o movimento popular desencadeado no Alto Vale do Rio do Peixe para a criação do Município de Caçador, com a sede formada pela junção de duas vilas distritais, a Vila Rio Caçador (de Curitibanos) e a Vila Caçador, ou Santelmo (de Porto União), separadas pelo leito do Rio do Peixe. Foi o principal articular deste movimento junto às autoridades estaduais, obtendo êxito a 22 de fevereiro de 1934, quando foi publicado o decreto de criação do novo município.

  Em março de 1934, foi nomeado, pelo Interventor Estadual, Coronel Aristiliano Ramos, como o primeiro Prefeito Provisório do recém-instalado Município de Caçador, ficando neste cargo até abril do ano seguinte. Entre agosto e outubro de 1934, quando da eleição de deputados federais e estaduais constituintes, o recém-criado Município de Caçador, no Alto Vale do Rio do Peixe, elegeu seu primeiro deputado estadual, Leônidas Coelho de Souza, pelo Partido Liberal, com 35.226 votos. Entretanto, não tomou posse e, com isso, Leônidas permitiria a ascensão da suplente imediata, Antonieta de Barros, representante da minoria negra na Capital, ela que viria a ser a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Poder Legislativo Catarinense, reconduzida também para a legislatura 1947-1951, na condição de suplente convocada.

  Em dezembro de 1934, durante os trabalhos de construção da estrada de rodagem Caçador-Palmas, junto ao patrimônio público de Taquara Verde, os irmãos Coelho de Souza descobriram petróleo. Com a jazida registrada, promoveram várias perfurações entre 1937 e 1940 no interior da Fazenda Torres, fazendo o “ouro negro” jorrar pela primeira vez em Santa Catarina, até que o Governo Federal determinou o lacre dos poços e proibiu novas perfurações.

  Merecendo tratamentos respeitosos, ora de Coronel (da Guarda Nacional), ora de Doutor (por ser formado em Agronomia), o Sr. Leônidas Coelho de Souza regressou ao Rio Grande do Sul em 1936. Atuou na Prefeitura de Erechim, na organização de Escola Agrícola, de novembro de 1936 a maio de 1937. Desgostoso com a ditadura implantada pelo Estado Novo, em 1937, com o que Getúlio Vargas confirmou Nereu Ramos na Interventoria Estadual de Santa Catarina, optou por permanecer em terras rio-grandenses, vindo a prestar serviços em Júlio de Castilhos, de agosto de 1938 a setembro de 1940. Em seguida, o Dr. Leônidas Coelho de Souza foi nomeado Diretor de Obras Públicas do Município de Montenegro, cargo que exerceu de 10 de setembro de 1940 a 8 de fevereiro de 1943.

  Conforme o processo nº 6507/1943, da Secretaria do Interior, a 28 de julho de 1943, o sr. Miguel Tostes, Interventor Federal Interino do Estado do Rio Grande do Sul, nomeou o Engº Agrônomo Leônidas Coelho de Souza, como Prefeito Municipal de Bom Jesus. Ele exerceu o cargo de 11 de agosto de 1943 a 19 de maio de 1945. Nesta gestão, em 1944, ele foi o principal articulador do projeto que culminou com a criação da reserva natural, entre Bom Jesus e Cambará do Sul.

  No final do Estado Novo, o Engº. Leônidas Coelho de Souza foi nomeado Prefeito Municipal de Marcelino Ramos (RS), pelo Interventor Federal, General Ernesto Dornelles, ato assinado a 21 de maio de 1945, conforme o processo nº 4459, exercendo o cargo de 8 de junho a 16 de novembro de 1945, sendo, em seguida, confirmado pelos Interventores no Estado, Dr. Samuel Figueiredo e Silva, Cylon Rosa e Walter Só Jobim, conforme o processo nº 12280, para o período de 22 de dezembro de 1945 a 5 de dezembro de 1947, assim passando pelo período da Redemocratização do País.

  Com a família, voltou a Bom Jesus e, depois de residir seis meses no Rio de Janeiro, passou a atuar no Serviço Público Federal, no Ministério da Agricultura, quando, em junho de 1949, foi nomeado pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra para ser Superintendente da Colônia Agrícola Nacional General Osório – CANGO, do Ministério da Agricultura, em Marrecas (hoje município de Francisco Beltrão), no Paraná, autarquia federal, que havia sido formada em 1943 para reorganizar a colonização da gleba “Missões”, exercendo o cargo até 1952. Neste tempo, promoveu a colonização de terras também no município de Cascavel. Em seguida, trabalhou em Curitiba e em Porto Alegre, quando pleiteou chefiar o Parque Nacional do Iguaçu.

  Funcionário do Ministério da Agricultura, de 1957 a 1959, voltou a trabalhar em Erechim (RS), onde foi Diretor do Posto Agro-Pecuário do Ministério da Agricultura, retomando a direção da Escola de Iniciação Agrícola (depois Escola Agrotécnica Federal), quando então, com 70 anos, recebeu aposentadoria compulsória pela idade. Voltou a Bom Jesus e em 1963 mudou-se para Vacaria, ali permanecendo até 1969, quando então fez sua última mudança, indo residir em Caxias do Sul.

  Em primeiras núpcias, Leônidas Coelho de Souza casou com Helena (Neli) e teve os filhos: Luiz Albano (nascido em Santa Maria a 05/04/1916), Newton Fontoura (nascido em Santa Maria a 03/07/1917), Clinton (nascido em São Jerônimo a 10/09/1918), Bairon (nascido em São Jerônimo a 18/10/1920), Gladis (nascida em Montenegro a 24/06/1922), Percival (nascido em Santa Maria a 04/09/1925), Glower (nascido em Passo Fundo a 11/04/1928, médico, casado com Amélia e falecido em Curitiba a 19/11/2009 aos 81 anos de idade) e Marco Antonio (nascido em Caçador a 16/07/1934). Casou em segundas núpcias com Selma Castello Branco, e teve dois filhos, Carlos Augusto Coelho de Souza Sobrinho (zootecnista, nascido em Marcelino Ramos a 15/06/1946) e Maria Helena (professora, nascida em Bom Jesus a 02/09/1948). Leônidas Coelho de Souza faleceu em Caxias do Sul, onde residia, no dia 31 de janeiro de 1976, aos 87 anos de idade, vítima de enfarto do miocárdio.

  A História do Município de Caçador – por nós em permanente construção – registra apenas que seu primeiro Prefeito, nomeado, “foi o Sr. Leônidas Coelho de Souza, que assumiu a 25 de março de 1934 e deixou o cargo em 1935”. A referência é assim: simplista. Quando Prefeito, Jucy Varella sancionou lei, denominando de “Leônidas Coelho de Souza” uma escola multisseriada do interior, no Distrito de Macieira, local que passou ao Município de Macieira quando emancipado de Caçador. Só em março de 1973, quando dos festejos alusivos ao 39º aniversário da emancipação política e administrativa de Caçador, na gestão de Moysés Comazzetto e Luiz Francisco Faltêncio Paganelli, por iniciativa do ex-Prefeito Jucy Varella, foi que a Câmara Municipal, em sessão especial, prestou homenagem pública ao então já octogenário Sr. Leônidas Coelho de Souza, que faleceu três anos depois.

  Por omissão, a injustiça!

  Nesta cidade de Caçador, em logradouros públicos nos quais já se homenagearam pessoas desconhecidas e estranhas – algumas até que nunca tiveram vínculos com essa terra e mesmo com a população caçadorense – hoje não há nenhuma menção de homenagem oficial à sua pessoa. Com o esquecimento – falta de lembrança – ainda agora, em 2013, quando Caçador completa 79 anos, inexplicavelmente o nome do não-lembrado desbravador e pioneiro Leônidas Coelho de Souza continua sendo desconhecido à nova geração de caçadorenses.

(Caçador, março de 2013)

© 2011 - 2019. Todos os direito reservados a Editora Rio do Peixe.