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Sábado - 23.09.2017

Noite: Céu com algumas nuvens Manhã: Sol com muitas nuvens


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Diário Rio do Peixe

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Colunistas

De Maria Fumaça – LXXXX

30/07/2013 - 00:00:00
Nilson Thomé in memorian

  Como estava caído com o corpo inclinado para a frente, pude ver quando a velhinha abriu os olhos, fez uma expressão de dor, mas, em seguida, sorriu ao me mirar e por sentir que ela mesmo estava bem. Quando um outro cara passou pela janela e nos achou ali, meio que amontoados e perguntou: - Vocês ai embaixo estão bem? Agora fiz minha parte, respondendo: - Sim, ao menos penso que sim. – Então aguardem que o socorro está chegando.

  Lá no centro da cidade, no ramal particular da Adami & Cia., comprado da massa falida da Madeireira Busato, havia uma composição de cinco carros abertos, tipo plataformas, se preparando para receber pilhas de caixas desarmadas e de madeiras estocadas. Ao ser avisado do descarrilamento, lançou sua máquina à frente até o primeiro desvio, mais próximo ao Moinho Maffessoni, o que lhe permitiu entrar na linha principal e de ré, à toda velocidade, foi bufando ao local do acidente. Freou quase em cima. Tanto as equipes do trem e da estação, como os populares, passaram a tirar os passageiros, estendendo-os deitados – naquele piso de vagão cheirando serragem molhada. Esse cheirinho é mais um que gera saudade dos tempos das grandes madeireiras do Oeste, que estão se acabando, melhor, que estão acabando com o estoque de pinheiros.

  Quando todos estavam retirados e embarcados, o trem de serviço se mandou para a estação do Caçador, para onde também iam os curiosos. Esse curtíssimo trecho final da viagem, jamais sairá da minha mente. Estava deitado e sentia as rajadinhas da brisa fresca da tarde que vinha do Rio do Peixe bater em minha testa. O maquinista foi hábil e a composição praticamente deslizou até a estação. Eu tinha passado por tudo e por todos nessa extensa viagem de ida e volta ao Marcelino. E agora, um final quase que trágico e melancólico marcaria o meu “the end”.

  Na medida em que a composição de socorro foi parando na plataforma de embarque da Estação do Caçador, centenas de pessoas olhavam-nos com um misto de curiosidade e pena. Ninguém havia morrido. Mas, havia muitas pessoas feridas, ainda que superficialmente. No conjunto, éramos todos sobreviventes.

  Nunca imaginei que pararia bruscamente de produzir estes contos, assim sem nenhum prazer ou alegria no último. Estou tendo um final lúgubre e não festivo. Minha entrada triunfal de regresso a Caçador... eu deitado e sujo num vagão plataforma, ao invés de limpinho e cheiroso sentado no vagão de passageiros. Gostaria de ter tido mais tempo para escrever ao menos mais umas dez historiazinhas. O pessoal do diariocacadorense.com queria eu fosse à número 100. Não deu. Ficamos nas noventa.

  Quem sabe, proximamente, eu venha a empreender mais uma viagem de trem, do Caçador ao Porto das União ou novamente de Caçador ao Marcelino, e aí possa retomar assuntos ligados a história da maria fumaça e de tudo em volta dela. Isso é uma idéia para os “futuramentis”, pois agora não vai dar mais. Talvez entre uma e outra dessas possíveis viagens de maria fumaça venha a produzir uma NOVA história, também em versos semanais.

  O seu José Giacomini Filho (Timpa), do “Jornal de Caçador” e os Gonzaga (Cid e Zany) do jornal “A Imprensa”, já estavam por ali querendo saber detalhes. O repórter mais ágil porém era o Adelar Gattermann, da Rádio Caçanjurê. Nos novos estúdios a emissora logo daria a noticia, diretamente e ao vivo, pela locução de Primo Zini (ou do Alcides Riedi e, quem sabe, do Osmar Telck?). Tentei cumprimentá-los, mas não consegui falar, quando me transladaram para uma padiola.

  De repente, uma dor imensa atingiu meu peito. Parecia uma tocha olímpica acesa entrando por dentro das costelas e rompendo tudo o que até então ali funcionava normalmente. Que aconteceu, meu Deus? Gritei de dor ao soltar algumas golfadas de sangue e senti que uma nebulosidade amarelo- avermelhada deixou turbilhão em meus pensamentos... e não pude mais pensar. A única coisa que vi sem ilusão foi quando passei, de padiola ao lado da placa da Estação, a antiga e querida Rio Caçador. Aonde iria a maca? Qual o rumo da maca?

(THE END)

Nilson Thomé in memorian

Depois de quarenta e nove anos de pesquisas em História, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, Geografia, Educação e Comunicação Social, desenvolvidas a contar de 1965 – tempo aplicado na realização de um projeto de vida no Chão Contestado – eis que a web permite-me a exposição pública a um universo maior de pessoas e o livre acesso de todos ao conhecimento.

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